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Entenda porque os sentimentos são a expressão consciente das emoções

Temos medo de sentir. Acreditamos que nos mata ou, no mínimo, nos incapacita. Apressamos o luto dos que perderam alguém, evitamos a tristeza daqueles que amamos, fugimos da desilusão com crenças de que tudo tem um lado positivo. E perdemos uma vida nessa luta inglória. Perdemos a vida que todos desejamos ter.

 

Os sentimentos amadurecem-nos. Sentir faz-nos crescer, psíquica e emocionalmente. Sentir é parte imprescindível de desenvolvermos todo o nosso potencial humano e vivermos uma vida feliz, plena de sentido e realização.

Os sentimentos são a expressão consciente das emoções, as pontas visíveis dos icebergues que representam todo o nosso mundo emocional.

A maioria do que sentimos não o sentimos realmente. A maioria das emoções não são conscientes, estão debaixo de água.

A maioria do que sentimos inconscientemente traduz-se em comportamentos espontâneos, aparentemente fora do nosso controlo, muitas vezes formas de agir de que não nos orgulhamos mas também não conseguimos eliminar.

Outras vezes sentimos sem saber que sentimos. É visível para os outros pois toda a nossa linguagem corporal traduz a emoção que nos domina. Mas se questionados sobre a dita emoção, negámo-la, porque conscientemente não temos noção de que estamos sob a sua influência.

Costumava pensar que me mentiam quando questionava alguém sobre o que sentia “estás frustrado, triste, com medo…” e negavam esse sentimento. Hoje sei que falam verdade, não o sentem conscientemente. Mas também percebo que estou certa na minha análise apesar da aparente negação. A linguagem corporal não mente.

Lembro-me bem de quando não era capaz de sentir conscientemente vergonha. Orgulhava-me de nunca corar, de pouco me envergonhar. Na realidade quase tudo me fazia sentir embaraçada sem que eu me apercebesse de tal. Hoje sei que toda a minha linguagem corporal era de vergonha: passava sem cumprimentar, muitas vezes sem ver se quer por quem passava de tão baixos que levava os olhos.

Desejava arduamente ser invisível e gastava os dias escondida, fugida, culpando os outros dos meus insucessos por não ser capaz de sentir-me capaz de errar, por a vergonha de o admitir a mim mesma parecer capaz de me sufocar e matar.

O poder dos sentimentos e das emoções

Só quando somos capazes de dar um nome à emoção que nos atravessa, esta consegue fazer o seu trabalho de nos amadurecer. Só quando ganhamos consciência do que sentimos crescemos verdadeiramente, em todas as suas vertentes e não só fisicamente.

Só que sentir é difícil. Verdadeiramente difícil, quando a emoção que espreita na água é o luto, a tristeza, a saudade ou a desilusão. Ninguém quer sentir o que dói de mais, ninguém quer sentir o que parece matar.

Numa sociedade que ainda tem muito de behaviorista, as emoções são uma variável sem sentido, uma característica de homens fracos ou mulheres lascivas.

 

Numa passagem de gerações onde dominou o pensamento behaviorista, perdemos a capacidade de compreender o poder dos sentimentos, de acolher as emoções como um todo, de apoiar quem sente.

Temos medo de sentir. Acreditamos que nos mata ou, no mínimo, nos incapacita. Apressamos o luto dos que perderam alguém, evitamos a tristeza daqueles que amamos, fugimos da desilusão com crenças de que tudo tem um lado positivo.

E perdemos uma vida nessa luta inglória. Perdemos a vida que todos desejamos ter.

É difícil fazer o luto, sentir a perda, deixar ir o que não volta mais. Mas só quando nos abrimos a essa dor conseguimos realmente amar de corpo e alma, incondicionalmente, sem medo nem reservas.

O pêndulo oscila, nunca ficando preso em nenhum dos lados. O pêndulo oscila entre a noite e o dia, não eliminando nenhuma hora. Assim é o pêndulo dos sentimentos. Assim somos capazes de amar e sobreviver ao perder.

Fugimos da tristeza como o diabo da cruz. Atualmente até lhe chamamos depressão, esquecendo-nos que “depressão” significa na realidade “depressão do positivo e negativo, ausência de qualquer sentir” e não apenas incapacidade momentânea de ser feliz ou tristeza duradoura.

E, com isso, não sabemos mais que a tristeza e a felicidade são as duas faces da mesma moeda. Olhamos para a tristeza e atiramo-la borda fora, deitamos fora essa moeda pois não nos serve, não lhe reconhecemos qualquer valor.

Depois procuramos incessantemente a felicidade, movendo rochas e até montanhas para a encontrar. Está no fundo do mar, do outro lado do que tememos e renegamos experimentar.

Os sentimentos amadurecem-nos. Fazem-nos crescer psíquica e emocionalmente. São parte integrante da conquista de uma vida feliz, plena de sentido e realização.

Mas sentir exige coragem de leão. Quebremos as amarras e atrevamo-nos a rugir todas as emoções, sem preferências, pois cada uma delas tem o seu papel e lugar no nosso crescimento, no nosso desenvolvimento, no nosso alcance da vida que sempre desejamos viver.

 

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