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Os relacionamentos são intrinsecamente perturbadores

O segredo de uma boa relação é a existência de um “eu individual” bem desenvolvido antes do nascimento de um “eu contigo”. Mas no mundo moderno, no contexto da sociedade atual e, mais precisamente, na forma como muitos de nós fomos criados, inúmeras vezes isso não aconteceu.

 

Estou prestes a iniciar uma jornada que dividirá o meu mundo em antes e depois, nomeadamente no que ao meu relacionamento íntimo ou casamento diz respeito. Sinto que será um caminho sem retorno e isso entusiasma-me. E assusta-me ao mesmo tempo.

Eu e o meu companheiro estamos juntos há mais de uma dúzia de anos, há quase duas décadas que partilhamos uma vida em comum, mas o nosso percurso tem sido tudo menos convencional e em incontáveis momentos nada, mas mesmo nada fácil.

Existe um sentimento comum e paradoxal de que há um propósito mais alto para a nossa união, de que é suposto estarmos juntos, de que pertencemos um ao outro, por isso lutamos. E prosperamos. E desesperamos. Mais vezes do que gosto de recordar parece que não falamos a mesma língua, que não vivemos no mesmo mundo, que existe uma parede de vidro entre nós que nos permite ver-nos, mas não entender-nos.

Foi por isso que quando ouvi Bruce Tift dizer que “os relacionamentos são intrinsecamente perturbadores” senti um imenso alívio. Com que então não estava sozinha, e nem sequer errada ou equivocada nos meus esforços.

Com que então apenas experienciava o que é viver no mundo real. Com que então as lutas diárias que um casamento pode apresentar, os permanentes encontros e desencontros, a dança constante entre momentos de zanga e paz, são normais. E até saudáveis. Sim, saudáveis, e isso foi para mim a aprendizagem mais desconcertante.

Toda a minha vida me lembro de sonhar com uma relação perfeita, com alguém que me completasse, com um “e viveram felizes para sempre”. O que eu não sabia é que o príncipe encantado dos contos de fadas é só e apenas a nossa mãe.

No útero e primeiros tempos de vida não temos consciência de que somos um ser separado. Entendemo-nos como uma extensão daquela que nos trouxe ao mundo, como parte integrante dela. E aí vivemos a ligação perfeita, a união sem separação, a fusão eterna.

Esta experiência fica registada no nosso corpo, nas nossas células, nas nossas memórias emocionais. Mas não na nossa consciência. E como memória intrínseca que é insiste em dar cartas no presente e ludibria-nos de que não é passado. Um dia vivemos a plenitude, conhecemo-la. E ansiamos voltar a encontrá-la.

Mas agora crescemos, agora conhecemo-nos como seres separados, agora já não somos crianças. Agora somos autónomos, capazes de viver sozinhos, seres independentes. Agora podemos não depender de ninguém, podemos ser autossuficientes se assim o desejarmos.

Mas com essa conquista vem uma grande perda: a experiência de sermos um enquanto dois. É o fim de uma possibilidade, mas não de um sonho. E isso é cruel. Podemos passar uma vida toda a desejar e procurar algo que nunca mais podemos viver.

 

Pior, podemos pensar que o encontramos, vivê-lo uns anos, e depois não perceber porque o perdemos. Todos conhecemos casais perfeitos que nunca discutem, que estão sempre de acordo, que vivem em perfeita comunhão. Até que já não conseguem mais ser felizes como antes.

E tudo acaba, o mundo desaba, a separação ocorre e eles não percebem o que aconteceu. Ainda se amam, mas já não são capazes de viver juntos, já não são felizes em comunhão.

Porquê? Porque um, ou os dois, finalmente se sentiram como seres separados. E tal como para o bebé que percebe que não é a mãe, que não faz parte integrante dela, já não há como voltar atrás e perder esta consciência. O caminho não tem dois lados, duas direções. A jornada só tem um sentido: a maturação.

Mas isso implica dor, isolamento, sofrimento. O verdadeiro oposto do que o relacionamento era antes. O infante está protegido desta consciência pela sua falta de integração. A natureza é sábia e poupa-o à dor. Mas o adulto não.

Os relacionamentos são intrinsecamente perturbadores porque para sempre existirá um “eu individual” e um “eu contigo”, e nunca mais uma união perfeita.

O segredo de uma boa relação é a existência de um “eu individual” bem desenvolvido antes do nascimento de um “eu contigo”. Mas no mundo moderno, no contexto da sociedade atual e, mais precisamente, na forma como muitos de nós fomos criados, inúmeras vezes isso não aconteceu.

A nossa individualidade, o nosso conhecimento de nós mesmos, é uma flor ainda por desabrochar, e essa imaturidade vai encontrar um lar e manifestar-se de formas desconcertantes nas nossas relações mais preciosas.

Foi isso que aconteceu comigo e é o resultado disso que eu experiencio na minha relação. Mas há uma resposta, um outro segredo escondido, uma porta das traseiras: encontrar um parceiro disposto a crescer connosco e a aceitar os “relacionamentos intrinsecamente perturbadores” como oportunidades de desenvolvimento e maturação.

Esse sim, é a nossa alma gémea. E quanto ao “viveram felizes para sempre?” Bem possível, mas somente se aprendermos a viver apenas no presente e a aceitar que a verdadeira felicidade só acontece quando também acolhemos e respeitamos a infelicidade!

 

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