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Que Medo! de Barbara Frandino: Um livro incómodo e apaixonante

 

Não é com facilidade que escolho um livro infantil para comprar. Compreendendo a importância de ler histórias para crianças, gosto de analisar os contos infantis que estão a ser vendidos antes de os levar para casa. “Que Medo!” constituiu, no entanto, uma exceção.

Que Medo!” veio para minha casa como resultado de uma compra impulsiva. Já estava na caixa para pagar e lá estava ele também, mesmo ao lado do vendedor, olhando para mim com cara de quem quer e precisa de ser comprado.

“É tudo?” Pergunta o funcionário.

“Não. Junte também este livro.” Respondo eu.

E o funcionário acrescenta, como que a validar a minha impulsividade: “É um ótimo livro. Ajuda as crianças a lidar com os medos dando-lhes técnicas para o controlar.”

Quase que cancelo a compra. O meu instinto de contra vontade havia sido despoletado.

Sou muito cautelosa com tudo o que pretenda ensinar as crianças a controlar os seus sentimentos ou emoções, sejam eles quais forem, positivos e negativos. Se este livro era sobre controlar o medo eu não ia gostar, certamente que me iria arrepender da compra e do gasto de dinheiro.

Não abortei a aquisição, apesar de tudo. Lá o trouxe comigo, curiosa e reticente. Tal como se estivesse a receber um convidado incómodo e irresistível em simultâneo.

E que bela surpresa que me esperava!

Que Medo!” é simplesmente delicioso. As histórias que conta são de uma prosa fascinante e cativante. Adoro a forma como são incluídas referências ao nosso país, relembrando-me o longínquo “Viagens na minha terra”. E os conhecimentos da autora transparecem em cada página. Não de forma esforçada, mas como que um perfume que ela já nem se apercebe que usa mas delicia todos os circundantes.

Que Medo!” assinado por Barbara Frandino superou todas as minhas expetativas.

E confirmou igualmente os meus receios. No meio da sua graciosidade de palavras, contos e práticas divertidas existem diversos princípios base com que não concordo. Como acontece com um dos maiores dogmas da atualidade, descrito na seguinte frase:

“Quem estuda a evolução sabe que há três tipos de reação ao perigo: ficar paralisado, fugir ou lutar.”

Mas há muito que aprendi que não preciso de concordar com todos os detalhes para apreciar e até amar o todo.

Primeiro, quem sou eu para saber mais ou menos que os outros. Com a mesma força que respeito o direito que tenho a discordar e possuir a minha própria forma de ver o mundo, respeito o conhecimento e opinião dos outros como simplesmente diferentes, sem certos nem errados.

Paralelamente aprendi a adorar estas discordâncias de pensamento quando leio para a minha filha. Geralmente não me coibo de partilhar com ela que não concordo com o que está escrito. Tal instiga uma partilha de pensamento crítico, onde ela demonstra curiosidade pela razão da minha discordância e tenta, igualmente, perceber qual a sua própria opinião.

Neste pequeno exemplo foram duas as respostas da minha pequena de apenas 6 anos que tanto me deliciaram:

 

“Paralisar tem mesmo que estar errado mamã! Se paralisarmos somos atacados e comidos pelos monstros!”

Tem lógica meu amor. Não é bem essa a função da reação paralisar, há uma profundidade de compreensão que ainda não te é acessível pela idade. Mas sem dúvida que o teu argumento tem muita lógica e merece validação.

Após alguma brincadeira em torno do assunto do livro e, claramente, um processamento interior da sua mensagem, vira-se novamente para mim e afirma:

“Mamã, não percebo. Quando tenho medo a primeira coisa que faço é correr para aqueles que amo, não o que diz esse livro.”

E aqui tudo me caiu aos pés. Eis a maior crítica ao postulado por Walter Canon como resposta ao medo: “atacar ou fugir” e a que posteriormente foi acrescentada a resposta “paralisar”.

Sem qualquer conhecimento de psicologia ou neurologia a minha pequena de 6 anos tocava na ferida, no ponto fraco de uma das verdades mais incontestadas da atualidade.

Por tudo isto, comprar “Que Medo!” foi uma das minhas melhores decisões dos últimos tempos.

Recomendo vivamente a sua aquisição e leitura a todos os pais que se interessam pelo tema, compreendem a importância de ler livros às crianças ou simplesmente gostam de ler um conto infantil aos filhos na hora de deitar.

Mas não vá por mim, decida por si que são sempre essas as melhores decisões de todas.

E se ainda não o fez por impulso, aqui está a sinopse do livro para o ajudar.

Sinopse do livro Que Medo! Guia para Fabricar Coragem e Enfrentar Qualquer Monstro.

É verdade que quando os pais se separam têm de dividir tudo, até mesmo o gato, e que, por isso, a mãe poderá ficar com o focinho e o pai com a cauda? E que uma vez um menino meteu a mão no escuro e nunca mais a encontrou?

Podemos ter medo de muitas coisas diferentes: de nos perdermos, de crescer, de sermos criticados, de falhar… O medo é uma emoção normal, que deve ser respeitada e que nos permite ficar de sobreaviso em relação ao perigo. Mas é também uma faca de dois gumes: por vezes não conseguimos distinguir uma preocupação real de uma desnecessária.

Neste livro vais ficar a conhecer os medos e os seus pontos fracos, porque para enfrentar o inimigo é preciso conhecê-lo e depois ter uma carta na mão para o derrotar.

Com posfácio de Stefania Andreoli, psicóloga e psicoterapeuta.

 

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