logo-mundo-de-parentalidade

O Poder da Prolactina: porque nunca me apeteceu atirar a minha filha pela janela?

Foi durante um período de férias, em plena ilha Tunisina, enquanto relaxava numa espreguiçadeira de praia, lia um bom livro e observava a minha princesa a construir castelos de areia com o pai, que uma resposta finalmente me chegou. Quase 6 anos passados percebi porque nunca me apeteceu atirar a minha filha pela janela fora.

 

Quando estava grávida disseram-me mil vezes “vai-te apetecer atirar a tua filha pela janela fora, tal é o cansaço da maternidade. Não te preocupes, é normal.”

Habitual ou não, nunca senti essa vontade. E era algo que eu estranhava, a sua ausência baralhava-me um pouco.

Já partilhei muitas vezes como me foi difícil ser mãe. Já escrevi como ataquei tudo e todos há minha volta, como fiz dos que me eram mais próximos os meus inimigos mais estimados, culpando-os dos meus infortúnios, e de como o desespero da maternidade me levou a perder o emprego.

Mas nunca ataquei a minha filha, nem em atos nem em pensamentos sequer. Nunca a culpei de nada e jamais me apeteceu atirá-la pela janela fora.

Às vezes quase que o desejava sentir. Parecia-me que se me sentisse menos responsável por ela tudo seria mais fácil.

Fui duas vezes a consultas de psiquiatria pedir ajuda, pois acreditava que ser mãe não devia ser tão agressivo, difícil, desprovido de sentido e experienciado como um pesadelo. Analisaram a forma como cuidava da minha filha, em termos práticos, e os meus sentimentos negativos relativamente a ela. Nesse campo estava tudo bem, pelo que concluíram sempre que estava tudo bem comigo, era só cansaço.

Não percebia o que se passava.

Mais do que uma vez o meu marido me disse “com ela és um doce, cuidas dela com carinho e amor; mas quando te viras para os outros parece que queres matá-los.”

Estava certo e eu não compreendia o meu comportamento.

Com o tempo fui perdendo a curiosidade e esquecendo o assunto. Até que estas férias, em plena ilha Tunisina, enquanto relaxava numa espreguiçadeira de praia, lia um bom livro e observava a minha princesa a construir castelos de areia com o pai, a resposta finalmente me chegou.

Quase 6 anos passados percebi porque nunca me apeteceu atirar a minha filha pela janela fora.

O que descobri sobre o Poder da Prolactina

Tirei leite durante 15 meses. Durante 15 meses a bomba de amamentação tornou-se quase uma segunda pele que existia em mim, acompanhava-me para todo o lado e usava-a rigorosamente pelo menos 5 vezes ao dia.

Diziam-me para desistir. Asseguravam-me que não era menos mãe se deixasse de extrair leite. Mas eu não conseguia parar, era mais forte do que eu. No meio do caos parecia ser a única coisa que eu conseguia controlar. Por isso perseverei sempre na minha extração de leite, contra todas as adversidades.

Tive que voltar ao bloco operatório e parar de tirar leite durante dois dias. O pouco que extraía à altura quase que desapareceu quando retomei. Não desisti.

 

Tive gretas, mastites e bloqueios de ducto. Não desisti.

Tive que tomar medicações e extraía leite para deitar fora. Não desisti.

Nem sequer desisti quando a máquina avariou. Comprei 3 no total, uma delas a meio da noite, enquanto a minha filha dormia ao lado do avô. Sozinha ao volante, com medo da noite escura enquanto procurava e encontrava a farmácia de serviço, não deixei de me interrogar: porque insistes tanto? Não devias antes aproveitar para dormir? Porque não desistes?

Sabia que não desistia por teimosia, porque dessa forma me sentia melhor mãe, porque simplesmente era incapaz de o fazer, com medo de que isso me matasse de vez numa gravidez, parto e puérpero que pareciam ter a minha morte como único objetivo.

Finalmente parei aos 15 meses. Senti uma liberdade enorme quando o fiz, como se tivesse recuperado uma parte da minha vida. Sem dúvida que havia recuperado horas do meu dia para fazer outras coisas, inclusivamente dormir.

Sempre experimentei um sentimento dúbio quanto há minha persistência na extração de leite materno.

Até à manhã que anteriormente descrevi, até aquele instante numa praia de Djerba que me fez perceber que talvez não fosse teimosia, mas instinto de mulher.

A razão pela qual eu nunca quis atirar a minha filha pela janela fora poderá ter sido bem simples. Poderá ter sido uma questão hormonal: o efeito da Prolactina.

A Prolactina é a hormona responsável pela produção de leite. Enquanto a mulher amamenta a Prolactina mantém-se alta.

A Prolactina é também conhecida como a hormona da maternidade carinhosa. A Prolactina é a hormona responsável pelos instintos protetores maternais.

Tudo fazia sentido. Finalmente tudo batia certo. Bendita teimosia ou necessidade de controlo. Nem quero imaginar como teria sido se tivesse desistido de extrair leite, reduzindo, assim, os meus níveis hormonais de Prolactina.

Já me faltava a ocitocina no sangue, como seria se também a Prolactina tivesse sucumbido? O que teria sido da minha relação com a minha filha?

E também não consigo deixar de me questionar: Será que foi por isso, pelo decrescendo de Prolactina que ocorreu depois no meu corpo, que o meu momento mais baixo como mãe, que os meus sentimentos mais negros, desesperantes e incapacitantes, ao ponto de finalmente ter ajuda psiquiatra, ocorreram aos 18 meses de vida da minha filha?

 

Share this article

Deixe um comentário

Your email address will not be published. Required fields are marked *