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Desabafo e crescimento em tempo da pandemia COVID-19

 

Hoje, pela primeira vez na vida, desejei nunca ter nascido.

Pela primeira vez na vida, desejei não ser mãe, não ser esposa, simplesmente nunca ter existido.

E celebrei. Celebrei sentir tanta vida.

No meio do meu choro compulsivo, agachada (escondida) aos pés do banco do passageiro num carro estacionado na garagem de casa (único sítio para onde fugir em tempo de COVID-19) celebrei o que antes nunca fora capaz de sentir.

Muitas vezes perguntam-me como podemos curar as feridas do passado, nomeadamente aquelas abertas em nós pelos nossos progenitores e que vertem pus infetado nos nossos casamentos e/ou parentalidade.

Eu respondo “chorando, sentindo a futilidade, fazendo o luto do que não é possível de mudar.”

“Pode explicar melhor? Eu sei que não posso mudar o passado, já o aceitei. Mas isso não me faz sentir melhor.”

Não há muito como explicar melhor, pelo menos não em termos intelectuais. É preciso senti-lo para realmente o perceber.

Fazer o luto não é uma escolha, é um luxo. Fazer o luto é sentir que também nós morremos naquele momento.

Mas tal como depois cada Inverno vem uma Primavera, depois do luto vem a cura, o renascimento, o amadurecimento.

No entanto podemos ficar eternamente presos no Outono, perdidos entre as folhas que caiem e tentando desesperadamente colá-las de volta no seu lugar em vez de nos rendermos à aparente morte do Inverno.

Porquê?

Por medo de morrer também.

 

E assim vivi eu 4 décadas da minha vida. Sem Primavera e sem Verão, por medo do frio do Inverno.

Vivi como ave migratória que voa sempre em contramão. Não porque fosse esse o meu rumo mas porque assim o ditava o meu medo.

Vivi em ditadura, nunca conhecendo a liberdade de ser feliz.

É preciso coragem para atrever-nos a testar a morte do luto quando passamos anos a fugir dela. É preciso um recuperar de vulnerabilidade que não sabe nada bem. Mesmo, mesmo nada bem.

E não é uma escolha. É um luxo que alcançamos, um passo de cada vez, conforme nos atrevemos a caminhar em contramão e recuperar todos os sentimentos que um dia catalogamos como perigosos e renegamos sua existência.

Por isso, em dias como hoje, em que sinto um pouco mais de frio, em que mergulho mais fundo no Inverno, celebro.

Celebro como aquela que um dia cantou o fado.

Porque sei que quanto maior a minha capacidade de morrer, maior a minha capacidade de viver.

Porque quanto mais agressivo for o Inverno, mais bela será a Primavera quando chegar.

Agachada no carro frio que há semanas não vê o sol as lágrimas continuam a correr, o peito dói e a cabeça rebenta.

Mas existe a serenidade de que tudo será melhor amanhã.

E a celebração de que agora sou capaz de viver com vulnerabilidade.

 

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