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Os Relacionamentos também possuem passado

Na idade adulta, a forma como um casal se escolhe mutuamente e constrói um relacionamento tem muito pouco a ver com as circunstâncias presentes e praticamente tudo com a forma como no passado cada membro interiorizou a essência das relações.

 

A teoria do vínculo, no contexto atual e tal como eu a entendo, tem por finalidade explicar a forma como cada um de nós perceciona os relacionamentos, sejam eles amorosos, parentais, fraternais, de amizade, de trabalho ou meramente circunstanciais.

Tomemos por exemplo os relacionamentos amorosos. Partilhar uma relação íntima com alguém é, para uns, uma experiência relaxante e de equilíbrio perfeito entre separação e conexão, para outros um campo minado onde amamos sempre mais do que somos amados, para terceiros uma experiência de prisão e perda de independência e para quartos uma sensação paradoxal de necessidade absoluta da presença do outro, aliada a uma constante vontade de fugir.

A forma como compreendemos e encaramos os relacionamentos (seguros, perigosos, eternos, fugazes, relaxantes, stressantes) é uma aprendizagem há muito realizada, é uma memória intrínseca e, como tal, presente no nosso corpo como uma verdade absoluta, nunca questionada e, inconscientemente, mil vezes comprovada.

A forma como percecionamos as relações humanas tem o seu inicio aquando da conceção e vai-se cimentando ao longo da gravidez, nascimento, primeiros anos de vida e experiências e episódios que com o tempo vivenciamos.

O ser humano é um ser social por natureza e necessidade. Os comportamentos de vínculo são comportamentos instintivos e fundamentais à nossa sobrevivência. A procura de proximidade é, inclusivamente, uma necessidade básica mais premente que a fome e a sede, pois quando somos apenas seres indefesos (embriões, fetos, bebés, crianças pequenas) a única forma de vermos estas necessidades colmatadas é se existir alguém que nos proteja e ame o suficiente para se interessar em as satisfazer.

Assim sendo, nascemos já com um comportamento instintivo de procura de proximidade como forma de garantir a nossa sobrevivência física. E a forma como aqueles responsáveis por nós reagem e respondem aos nossos pedidos de conexão vai determinar a forma como sentimos e compreendemos os relacionamentos, vai assegurar o nosso tipo de vivência emocional.

Desde o momento da conceção que o embrião / feto / bebé experimenta os sentimentos e as ações da sua mãe. Aonde quer que a mãe experiencie uma emoção segue-se a produção de um neurotransmissor que é partilhado com o filho e o faz sentir de forma igual. Estas moléculas vão desempenhar um papel fulcral no desenvolvimento da mente e do corpo do futuro recém-nascido, como a ciência o tem demonstrado.

 

Posteriormente, o tipo de nascimento experienciado deixa uma marca importante, ou inprint, no cérebro imaturo do recém-nascido. A consciência do momento (do bebé e da mãe), a dor experienciada (idealmente nem de menos nem de mais) e a separação experimentada vão fortemente influenciar não só o comportamento imediato deste ser, mas a forma como para sempre olhará o mundo, inclusive o casamento ou parceria que um dia viverá.

Por último, a forma como se relacionará com os seus diversos cuidadores, o tipo de amor que percecionará receber, a aceitação ou rejeição que sentirá, com as suas diversas nuances e erros de interpretação, determinará de forma sólida (mas não completamente indestrutível) a confiança que no futuro terá em ser plenamente amado e respeitado ou em perigo de ser atraiçoado.

Por tudo isto compreendemos que, na idade adulta, a forma como um casal se escolhe mutuamente e constrói um relacionamento tem muito pouco a ver com as circunstâncias presentes e praticamente tudo com a forma como no passado cada membro interiorizou a essência das relações.

Se tiverem acertado no Jackpot e ambos os membros do casal tiverem sido premiados com um vínculo seguro, então o relacionamento será estável e maduro, apesar das suas origens imaturas.

Mas se, pelo contrário, um ou ambos os membros da parceria tiverem experienciado um vínculo predominantemente inseguro, tão comum na sociedade atual, então a relação poderá ser bastante instável e dolorosa, independentemente do amor existente entre eles e da vontade de continuarem juntos.

Felizmente para a raça humana a adaptabilidade é um dos nossos traços mais proeminentes e, Deus ou a Natureza, sempre providenciam uma “porta das traseiras” para podermos mudar o que não nos serve e é apenas fonte de sofrimento. Cabe-nos a nós escolher atravessá-la, experienciar o medo do que é novo e sentir o peso do que é nossa responsabilidade, ou eleger continuar no caminho que já conhecemos e nos dá segurança e continuar a culpar os outros pelo nosso sofrimento.

 

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