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O nascimento determina a vida

 

Sabem aquele momento em que sentimos toda a nossa vida a mudar? Aquele instante que separa o antes do depois, o que foi e nunca mais será do que ainda não sabemos muito bem como vai ser?

É aí que eu estou agora. Não no sentido negativo de algo físico ter acontecido, não, nada disso, felizmente. Mas na perceção real de que o que antes era verdade para mim já não mais é. Mais um muro ruiu do meu mundo antigo, mas este é do tamanho da Grande Muralha da China, este lutou por ficar de pé, este eu resisti com armas e coração a não deixar cair.

E o que o fez tombar foi precisamente a minha tentativa de provar que ele era inquebrável.

No Domingo passado uma amiga convidou-me a ver um filme sobre o parto no seu maravilhoso espaço: “O nascimento tal como o conhecemos”. Enquanto assistia a película algo em mim revoltava-se, as minhas entranhas viravam-se e reviravam-se, e a crítica formava-se na minha mente “Sim, sim, sim, é tudo muito bonito. Mas estou farta desta gente simplista que apresenta o parto como um acontecimento determinante de toda uma vida. Que reducionista e que apresentação fatídica! É muito bonito para os espiritualistas praticantes de yoga e meditação. Mas e o resto de nós? As pessoas normais, não perfeitas, cheias de inseguranças e a anos-luz de tais estados de consciência? O que vocês dizem é que os nossos filhos estão simplesmente condenados. Vou provar-vos errados!”

Ok, por esta altura eu já devia saber que quando entro em tais estados de crítica é porque toquei em alguma ferida profunda e simplesmente não quero vê-la. Mas a verdade é que o “devia” é também uma forma de crítica e eu preciso do meu tempo para explorar as minhas feridas. E esta mazela eu ainda não era capaz de tocar.

Cheguei a casa e fui buscar o livro recentemente comprado “The secret life of the unborn child” de Thomas Verny.

Bem no fim do filme tinha percebido que ele tinha por base uma corrente de pensamento/doutrina/movimento (o que quiserem chamar, sem qualquer crítica, apenas desconhecimento da minha parte): Body into Being.

“Ok, ok” pensei eu “já vos apanhei o ponto fraco, o calcanhar de Aquiles”. Este filme tem por base a Teoria Clássica do Vínculo, de John Bowlby, e, como tal, não leva em consideração a atual visão Gordon Neufeld sobre este assunto. Daí que acreditem que o nascimento é tão determinante na vida de um adulto, tão fatídico.

Quem é que estava a ser reducionista agora? “Eu, me, moi, mir!”

Mas voltemos ao que interessa. Fui buscar o livro de Thomas Verny com o intuito de o provar errado com o que sei atualmente sobre o vínculo. Falta de modéstia? Completamente, mas não tencionava partilhar nada disso com ninguém, era só para mim, para eu poder viver melhor com o mundo no seu lugar (ainda tenho ilusões dessas, ah!)

Tudo correu bem durante o primeiro capítulo. Não consegui refutar nenhum argumento, mas continuava a acreditar que ia encontrar alguma incoerência.

O início da mudança aconteceu quando tive o meu momento “Jerry Maguire”. Lembram-se do filme? Bem no final ele irrompe pela sala da mulher que ama, interrompe uma tertúlia de “vamos atacar os homens” e explica-lhe o porquê de não conseguir viver sem ela. Dorothy simplesmente responde “You had me at hello!

E foi isso que senti quando li “there are no one-to-one correlation in human psychology (…) Nothing about the mind is that neat.” (p. 50) He had me, he had me at hello!

Mas não é desse instante que eu quero falar. Não, nesse momento apenas passei a acreditar que o próprio Thomas Verny iria confirmar as minhas suspeitas: o nascimento é importante e determinante à nossa personalidade futura, mas a sua influência negativa pode ser perfeitamente revertida por pais conscientes.

 

E agora que o escrevo isto, percebo que não só continuo a acreditar em tal como ele o suporta.

Essa não é a questão, a verdade verdadinha, como diz o povo, é que eu não acreditava na influência do nascimento na nossa vida futura, de todo!

Eu queria acreditar, eu sentia na pele que era verdade, eu até tinha tido um momento um pouco sobrenatural de recordar o meu próprio nascimento por Manobra de Kristeller. Mas estava tipo Freud: não é uma verdadeira recordação, apenas uma fantasia da minha mente fértil em imaginação.

E, de repente, chego a hoje de manhã. Termino o Capítulo 4 e dou uma espreitadela, com alguma repulsa, ao 5: The birth experience. “Ora aqui vamos nós ao mundo da fantasia” acredito que tenha sido o meu pensamento inconsciente.

Mas numa fração de segundo tudo caiu, tudo ruiu. Presa ao texto senti as emoções passarem por mim tal qual um rio turbulento pós diluvio. Já mal conseguia ler, já não percebia o que estava escrito.

Ainda me agarrei, resistente até à última, às ideias de que não estava a perceber o inglês e/ou que o que me incomodava era a mensagem de que a cesariana era o segundo tipo de parto menos emocionalmente traumático a seguir ao nascimento vaginal simples e sem complicações. Mas já nada era capaz de realmente compreender.

Pousei o livro, preparei a minha filha e levei-a à escola. Voltei para casa certa de que algo estava errado com a minha interpretação do que lia. Muni-me do dicionário e voltei à carga, à leitura do capítulo.

Paralisei. Fui buscar os livros de David ChamberlainThe Mind of Your Newborn Baby” e “Windows to the Womb”. Comecei a ler sem destino, abrindo aleatoriamente aqui e ali, procurando com ânsia e medo os capítulos sobre o nascimento.

E finalmente fez-se luz na minha mente: Os seres humanos lembram-se do seu nascimento, todos, sem exceção. Não a um nível consciente, mas também não unicamente como uma memória intrínseca. Quando nas condições certas, os seres humanos são capazes de recordar como nasceram. E enquanto não o recordam estão muitas vezes presos aos medos que sentiram quando nasceram, aos traumas, às aprendizagens muitas vezes erradas mas não menos condicionantes.

E as crianças pequenas, ainda na fase em que começam a falar, são capazes de recordar conscientemente episódios não só do seu nascimento mas também da vida in útero.

Louco? Sim, certamente. Para mim era, até esse instante.

E mesmo quando partilhava com outros o facto da minha filha de apenas dois anos falar da sua gémea idêntica que perdeu às 13 semanas de gestação, brincar com ela e virar-se para mim num pranto sem fim, perguntando com raiva “porque é que ela me abandonou?” “Quem, filha, quem é que te abandonou?” “A outra, a outra tua filha, a igual a mim! Porquê, mãe, porquê, porque é que ela me abandonou? PORQUÊ?” eu não via, eu não queria ver, eu não acreditava verdadeiramente.

E hoje tudo mudou. Não sei no que vou acreditar amanhã, ainda não sei bem o que vai ser, mas sei o que caiu e morreu: a minha última resistência a que o nascimento não é assim tão importante!

 

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