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O meu filho bateu-me: e agora?

 

O que fazer quando uma criança de colo nos bate? A resposta a esta pergunta costuma ser um dos exemplos mais usados para explicar como ser uma mãe consciente. Lembro-me bem de o aprender e utilizar.

A minha filha tinha pouco mais de um ano quando me começou a bater, ocasionalmente. Era a altura ideal para eu aplicar o que tinha aprendido. Com ela ainda no meu colo dizia-lhe “amor, as mãos não são para bater, são para fazer miminhos” e com a minha mão livre pegava nas suas e exemplificava o fazer de um carinho em vez de bater.

Nem sempre resultava para fazê-la parar de bater. Mas como criança de colo que era, nada mais natural do que eu ter que repetir o ensinamento vezes sem conta até ele ser assimilado.

E a maioria das vezes resultava às mil maravilhas.

Mas vamos um pouco mais longe, permitam-me descortinar o que se passa por de baixo desta técnica de mudança de comportamento.

Sim, técnica de mudança de comportamento! Porque estamos a focar-nos em que ela pare de bater e não na causa do bater.

Porque bate uma criança de colo? Para testar até onde pode ir? Não me parece. Pode ter curiosidade em saber o que acontece se bater, mas isso não é o mesmo que dizer que está “a testar os limites”. Ela lá sabe o que são limites no sentido conceptual!

Uma criança bate quando um sentimento a impele a fazê-lo. Os Sentimentos comandam o Comportamento. Sempre! E este é, na minha opinião, o ponto em que nos devemos focar.

Voltemos ao exemplo da minha filha. As razões porque ela me batia ocasionalmente eram muitas: frustração por ter que parar com uma brincadeira ou partilhar um brinquedo, alarme porque eu estava com ela ao colo mas emocionalmente desconectada, impotência por não poder ser dona das suas ações. Um sem número de sentimentos que ela não era ainda capaz de conter, perceber e nomear, e que se traduziam no ato de bater.

Mas sempre um comportamento resultante de um sentimento base.

E o que fazia eu no exemplo acima partilhado?

Focava-me no comportamento e não no sentimento.

E com isso não a via, não validava o que ela sentia e até matava uma forma de reagir que eu quero que ela tenha em situações que assim o requeiram.

 

Se alguém a atacar fisicamente, eu quero que ela aprenda a defender-se. Se um estranho a agarrar à força, eu quero que ela se debata com unhas e dentes para se libertar dele. E “debater com unhas e dentes” significa não só bater, mas também ferrar, arranhar e até pontapear”.

E como é que eu penso que a minha filha o fará caso esse perigo surja?

Porque quando a agarrarem à força vai parar para pensar “ok, isto é o caso em que a minha mãe me disse para me defender porque é um estranho que me está a agarrar!” Não, claro que não, a defesa é um instinto não o resultado de um pensamento. E é um instinto porque não há tempo para pensar.

O que eu quero é que a minha filha seja capaz de sentir o medo e agir segundo ele. E o medo fará o seu papel, convocando todos os comportamentos necessários à defesa.

Mas só, e mesmo só, se eu não tiver quebrado os instintos da minha filha através da mudança do comportamento: “não se bate, faz-se miminhos”! Faz-se miminhos uma ova quando o medo está em jogo!

E muitas vezes é o medo que faz os nossos filhos baterem-nos. Um medo que para nós não faz sentido e nem percebemos de quê, mas não deixa de ser o que eles sentem.

Por isso, foquemo-nos nos sentimentos, em abrir espaço para todos, em acolher todos e ajudar os nossos filhos a perceber que são desconfortáveis mas os podem sentir.

Sei que pensam que eu estou a exagerar. Que o ensinar os nossos filhos a fazer miminhos em vez de bater não vai impedir que eles reajam numa situação de verdadeiro perigo. Sim e não.

Não, porque infelizmente já vi demasiadas crianças congelar em momentos que requeriam pura ação dos instintos. Há uma divisão no seu interior entre o que diz a intuição e o que aprendeu com os cuidadores que se traduz numa falta de reação. Como é que é possível? O cérebro de uma criança até aos seis anos funciona no cumprimento de onda energético usado na hipnose. O que significa que o que lhes dizemos é igual ao que um hipnotizador diz ao sujeito a ser hipnotizado. Maravilhosa e assustadora descoberta da neurociência!

E sim porque muitas crianças continuam a bater independentemente do que lhes é dito. Há muitos fatores extra em jogo que influenciam o resultado. E este comportamento tende a exacerbar-se por volta dos quatro/cinco anos, especialmente em crianças que não sabem verbalizar os seus sentimentos, nomeá-los. E como podem elas saber se o parar de bater era a prioridade e não o sentimento que comandava tal comportamento? E nessa altura também as ensinamos a fazer miminhos em vez de bater? Não me parece que a maioria dos pais seja assim tão gentil.

Concluindo. Não tenho nada contra a Parentalidade Consciente e nem sequer o exemplo que foi dado acima. Certamente que usar o positivo em vez do negativo é um salto do tamanho da velocidade da luz relativamente às técnicas puras e duras de mudança de comportamento. O meu desafio não é para virarem as costas a este tipo de parentalidade, mas sim para espreitarem um pouco mais fundo, para olharem um pouco mais longe, para se questionarem se o que praticam vai realmente ao cerne da questão ou fica apenas pela superfície.

E quanto ao que é que eu recomendo fazer então? Fiquem por aí e em breve o partilharei. Mas adianto já que não é nada preto e branco e implicará olharem para dentro de vocês em vez dos vossos filhos.

 

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