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Nascida por manobra de Kristeller: Vantagens

 

Há pouco tempo escrevi um texto sobre nascer por manobra de Kristeller. Foram muitos os comentários que me fizeram sobre essa partilha. Maioritariamente mães, a desabafarem o peso de uma culpa “o meu filho/filha também nasceu assim!”

Por isso, hoje escrevo para elas uma continuação.

Tudo na vida tem vantagens e desvantagens. Tudo, sem exceção!

Ontem conversava com uma mãe sofre a sua culpa em ter escolhido, durante o parto do primeiro filho, uma repicagem da epidural e o consequente prolongamento do período expulsivo. Falávamos do nascimento de uma criança Altamente Sensível, sem qualquer margem de dúvidas. E embora a Alta Sensibilidade tenha uma forte componente genética, estudiosos como Gordon Neufeld defendem que o tipo de gravidez e parto influenciam a sua existência.

Ser Altamente Sensível no mundo atual é um desafio que eu conheço bem, como pessoa que o sou e como mãe de um ser que também o é. Como já partilhei, ser Altamente Sensível é genético, pelo que possuo vários familiares com essa característica temperamental, se a podemos assim chamar. E infelizmente conheço muito melhor os custos que os benefícios deste dom disfarçado.

Mas ontem, após a conversa com a mãe em questão, lembrei-me de algo que ainda não tinha associado, verdadeiramente compreendido. Fez-se luz, como diz o ditado popular, e eu amei a minha sensibilidade e o meu parto por manobra de Kristeller, como nunca antes tinha amado.

Sempre fui boa aluna, mesmo muito boa, se me permitem a falta de modéstia. E como sempre gostei de estudar, não é estranho que assim o fosse.

Mas há algo no meu percurso de estudante que sempre me baralhou. E que aprendi a não partilhar, para evitar os olhares de “deves estar louca” que costumava receber em troca.

Sempre fui boa aluna porque sempre gostei de estudar… mas também porque mais do que saber a resposta certa, sabia a resposta que os professores desejavam receber.

Mas deixem-me explicar melhor.

Quando estudava conseguia perceber o que precisava de decorar ao pormenor e o que podia simplesmente ignorar. Era como se fosse capaz de pressentir as perguntas que iriam vir, os assuntos que iriam sair, mesmo antes de o professor fazer o teste. E mesmo quando não sabia uma resposta, intuía o que dizer para pelo menos ganhar alguns pontos.

Lembro-me de estudar o “Erro de Descartes” em apenas uma noite, e de ter a noção de que o que interessava eram as notas de rodapé, e não o texto principal.

Lembro-me de mudar a forma de escrever conforme o professor em questão, mais sucinto ou mais pormenorizado, e de acertar sempre com o que era esperado.

Lembro-me de ser capaz de detetar as ratoeiras das perguntas mesmo antes de as terminar de ler.

Lembro-me de, já na faculdade, entregar trabalhos muito incompletos, mas que tocavam no ponto fraco ou forte de quem o ia avaliar, e de saber de antemão que a nota iria ser alta mesmo sem o merecer.

 

Lembro-me de ser capaz de ler os professores, de os perceber, de saber o que esperavam de mim e do meu trabalho. E se embora exigisse estudo corresponder às suas expetativas, não há como negar que saber o que fazer, o que é esperado de nós ao pormenor, é meio caminho andado para o sucesso.

E tudo isto era tão inconsciente que durante muito tempo não me apercebi que não era a norma, o habitual. E não compreendia como é que os outros cometiam erros tão evidentes nas respostas que davam.

E quando comecei a perceber que responder à pergunta “Como é que sabias qual a resposta a dar?” com um “Porque era a que o professor queria” fazia de mim uma espécie de feiticeira, compreendi, finalmente, que havia algo de diferente em mim. Mas nunca o consegui realmente entender.

Como é que era eu capaz de ver o que não era visível para todos, nem sequer para a maioria?

Como é que eu sabia o que não era ensinado nas aulas nem nos livros, o que mais ninguém parecia saber, nem mesmo as pessoas/telas observadas?

Porque era eu capaz de adivinhar as respostas que devia dar, mesmo antes de conhecer as perguntas?

Porque era (e sou) Altamente Sensível!

E ser Altamente Sensível tem os seus dons.

E embora concorde completamente com o que Thomas Verdy escreve sobre o nascimento e a formação da personalidade humana “there are no one-to-one correlation in human psychology (…) Nothing about the mind is that neat” também sei que isso não significa que não exista uma relação forte entre a forma como nascemos e quem nos tornamos. O próprio Verdy defende que quem somos depende em grande parte de como entramos neste mundo.

Por isso, de uma forma um pouco linear mas nem por isso menos verdade, termino com a seguinte conclusão:

Existem vantagens para o meu nascimento por manobra de Kristeller. Vantagens que me têm trazido fortes benefícios na vida, como as notas altas que tirava na escola.

Nasci por manobra de Kristeller. Isso potenciou a minha Alta Sensibilidade. Ser Altamente Sensível deu-me a capacidade de ler os professores. Isso fez de mim uma aluna excecional. E essa é uma vantagem inegável no mundo atual.

Por isso, mães que se culpam pelo nascimento menos perfeito dos seus filhos. Permitam-me a ousadia de perguntar: “Quais as vantagens que a vossa escolha menos certa ofereceu ao vosso bem mais precioso?”

 

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