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Qual a semelhança entre um alcoólico e uma criança que não sente a futilidade?

 

São tantas que nem sei por onde começar. Sei que pode parecer uma comparação estranha, e é. Mas nem por isso menos importante.

Todos sabemos que grande parte dos crimes sobre os quais lemos nos jornais ocorrem sob o efeito do álcool. E alguns de nós já estivemos alcoolizados e experienciamos a desinibição que daí decorre.

Mas o que é que, realmente, se passa no nosso organismo inebriado que leva a que percamos as inibições, nos tornemos mais audazes, para o bem e para o mal, e ajamos por impulso, como se só existisse o presente?

Perdemos a nossa capacidade de integração.

E o que é isso?

É o que nos permite agir como seres humanos maduros, capazes de avaliar as consequências de um determinado comportamento e escolher a forma como atuamos face às situações com que a vida nos presenteia.

Se, tal como eu, está a pensar “mas às vezes não me parece que seja bem eu que escolha! Ainda ontem, quando dei por ela, já tinha explodido e agido de forma bem diferente do que eu desejaria.”, então é porque conhece bem os efeitos da perda da capacidade de integração perante uma situação emocionalmente carregada.

A capacidade de integração ocorre quando somos capazes de sentir duas coisas diferentes em simultâneo e agir tendo como força motriz ambas as emoções.

Por exemplo, quando temos medo de voar mas queremos muito visitar alguém que amamos e já não vemos há muito tempo, somos capazes de andar de avião apesar do pavor. Ou, numa situação mais habitual, quando nos sentimos exasperados com alguém, mas experienciamos, em simultâneo, amor e respeito por essa mesma pessoa, conseguimos exprimir-nos respeitosamente em vez de explodirmos de raiva.

A capacidade de integração só se desenvolve por volta dos 6/7 anos de idade e se as condições emocionais forem conducentes. Ou seja, se formos capazes de sentir a futilidade.

 

Quando a vida requer que as nossas crianças criem muros para serem capazes de funcionar num mundo que é demasiado duro para elas, então há sentimentos que se perdem. E a futilidade é o primeiro a desaparecer. Mas ela não se vai embora sozinha, gosta de se fazer acompanhar pelos sentimentos de carinho e alarme. São os três muito bom companheiros.

E o que acontece quando perdemos os sentimentos de carinho e alarme? Perdemos a nossa capacidade de integração, pois estes são os grandes contrapesos, os grandes ponderadores que contrabalançam os impulsos.

Porque salta um adolescente de uma varanda para uma piscina numas férias de fim de ano? Porque não sente medo. Ou melhor, porque não sente alarme. É coragem? Não, a verdadeira coragem implica que se sinta alarme, mas se escolha fazer algo mesmo assim.

A verdadeira coragem seria arriscar perder o respeito dos colegas mas não saltar por medo de perder a vida. Mas isso implica ser capaz de sentir duas coisas contraditórias em simultâneo e escolher com base em ambas. Não sentir alarme perante uma situação perigosa não é coragem, é incapacidade de sentir.

E porque perdeu esse jovem a capacidade de sentir? Ou porque está alcoolizado, drogado ou sob o efeito de qualquer outra substância eliminadora de sentimentos. Ou porque está defendido e não é já capaz de sentir, seja alarme, carinho, vergonha, embaraço, ou o que for que costuma desaparecer em conjunto. E tudo começa com a perda da capacidade de sentir futilidade.

Então, qual a semelhança entre um alcoólico e uma criança que não sente futilidade? Vão se meter em sarilhos, fazer algo perigoso e/ou ser violentos contra os outros ou eles próprios. E vão ficar presos num ciclo vicioso que os vai matar a pouco e pouco, física e/ou emocionalmente.

Mas ambos podem voltar a ser saudáveis e viver vidas realizadas e felizes. O alcoólico precisa de ajuda para deixar de beber. E a criança precisa de auxílio para voltar a sentir. E o grande problema é que se o primeiro é evidente para todos, o segundo quase ninguém o compreende numa sociedade virada para o bom comportamento a qualquer custo e onde se premeia a falta de sentimentos.

E depois ainda nos perguntamos de onde vem tanta violência!!!

 

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