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Como posso ajudar o meu filho com trauma?

Cada vez mais se discute a existência e importância do trauma de vínculo, aparentemente muito mais difícil de tratar que um trauma pontual.

 

Todos os seres humanos experimentam situações traumáticas na vida.

Os traumas podem ocorrer como resultado de uma catástrofe localizada no tempo e no espaço, como a perda de um ente querido e vínculo principal, uma violação, um acidente grave, por exemplo.

Mas também podem ocorrer impercetivelmente, através de uma negligência emocional que não é reconhecida como tal na sociedade atual.

Muitos especialistas em trauma falam na sua herança genealógica, na forma como ele passa de geração em geração sem que se perceba muitas vezes como.

Por exemplo, existem estudos que demonstram que os filhos dos sobreviventes dos campos de concentração nazis possuem stress pós traumático sem nunca terem passado pelas provações que passaram os pais.

Também, cada vez mais se discute a existência e importância do trauma de vínculo, aparentemente muito mais difícil de tratar que um trauma pontual.

O trauma de vínculo é muito menos conhecido do público em geral e, como tal, causador de um sofrimento indiscritível sem causa aparente para aquele que o sofre, quem o acompanha e infelizmente muitos terapeutas que o pretendem tratar.

Mas onde quero eu chegar?

A um ponto bem específico.

Um pai que cura o seu trauma, cura o do filho em simultâneo

A maioria das crianças, para não dizer mesmo todas, experimentam situações traumáticas na sua existência, por muito amorosos, atenciosos e cuidadores que sejam os pais.

E embora existam inúmeros profissionais capazes de ajudar os nossos filhos a lidar com as situações traumáticas (pelo menos com aquelas corretamente identificadas como tal) ninguém substitui os pais ou principais cuidadores como terapeutas principais.

É em casa que eles vão mostrar os comportamentos mais bizarros. É em casa que eles vão regredir para metade da sua idade. É em casa que eles vão parecer enlouquecer.

É em casa que eles vão revisitar o trauma e dar voz emocional à escuridão e medo experimentados.

E não há como fugir disso. Pelo menos sem causar mais trauma.

Podemos controlar os comportamentos inapropriados jogando com o sistema do alarme (promovendo castigos, mandando para o quarto até se acalmarem, retirando privilégios).

Mas saibamos que quando resulta (porque em muitas crianças há um dia em que deixa de resultar e a aparente espiral de loucura intensifica-se drasticamente) estamos a acrescentar combustível ao trauma. E um dia vai rebentar.

Não há como fugir do trauma.

 

O trauma não pode ser encoberto. Não é passível de ser silenciado.

Não há como curar o trauma sem que haja um luto da dor e sofrimento inimagináveis que um dia foram sentidos, mesmo que não recordados.

O papel dos pais é simples na sua apresentação e aterrorizador na sua execução.

É provavelmente a tarefa mais difícil e assustadora que alguma vez realizaremos, pois implica que sejamos capazes de nos sentar com experiências e emoções muitas vezes horríveis e que só almejamos esquecer.

Se uns pais querem ajudar um filho com trauma precisam de ir com eles até ao lugar escuro onde todas as atrocidades podem ser emocionalmente recordadas e o seu luto realizado.

Os nossos filhos só são capazes de se sentirem seguros, capazes de enfrentar o mundo com todas as suas crueldades, verdadeiramente resilientes, quando nos observaram a enfrentar a escuridão aterradora com eles ou por eles.

O grande problema é que muitos pais nunca tiverem alguém capaz de realizar tal ato de coragem por eles. Então como oferecer o que nunca receberam?

Assim se percebe um pouco mais porque vivemos num tempo e sociedade em que o medo é o ditador silencioso, orientando quase todas as decisões tomadas.

Temos que ser corajosos e enfrentar os nossos traumas primeiro se queremos ajudar os nossos filhos a livrarem-se dos seus tentáculos asfixiantes.

E acreditem que sei bem o quão difícil é essa tarefa.

Somos David a lutar contra Golias. Se vencermos, quebraremos as amarras de heranças geracionais quase intemporais e criaremos seres humanos capazes de quase tudo. Se perdermos na tentativa, pelo menos parte da herança terá sido quebrada e o caminho iniciado para o sucesso emocional dos nossos descendentes futuros.

Está nas nossas mãos muito mais do que imaginamos.

 

“When you have a persistent sense of heartbreak and gut wrench, the physical sensations become intolerable and we will do anything to make those feelings disappear.

And that is really the origin of what happens in human pathology. People take drugs to make it disappear, and they starve themselves to make it disappear, and they have sex with anyone who comes along to make it disappear and once you have these horrible sensations in your body, you´ll do anything to make it go away.”

Bessel A. Van der Kolk

 

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