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Não amo mais o meu filho adotivo. E agora? O que fazer? Como agir?

Donald Winnicot, pediatra e psicanalista inglês que trabalhou com as crianças deslocadas da II Guerra Mundial, desenvolveu uma teoria muito pessoal no que dizia respeito às dificuldades que ele observava nestas mesmas crianças em adaptarem-se a um novo lar.

 

Costuma pensar-se que uma criança que cresce numa família disfuncional, ou até sem ela, prospera quando finalmente recebe o amor de pais atentos e dedicados. Não é necessariamente o caso. Por vezes o ódio domina, como se os pais adotivos fossem os responsáveis pelos seus anos de maus tratos.

O mesmo fenómeno é possível de ser observado perante enteados desapontados com o divórcio dos pais biológicos e padrastos ou madrastas dedicadas.

A criança é amada e é-lhe proporcionado tudo o que precisa. Mas em vez de prosperar no seio desse amor, revolta-se contra quem a tenta amar, afasta-se o mais possível, é extremamente ansiosa e/ou protagoniza atos revoltantes e desafiantes.

A criança é amada mas não o sente, não é capaz de o sentir. Manifesta abertamente essa incapacidade de receber amor e torna-se desagradável em inúmeros aspetos.

Os pais adotivos, padrastos e madrastas sentem sentimentos de repulsa e até mesmo ódio contra essas crianças.

Convencidos que deixaram de amar sentem-se encurralados, perdidos, errados. Fogem do relacionamento, abandonando casamentos e parentalidades não biológicas, ou sofrem em solidão.

O que eles não sabem é que é no reconhecimento e aceitação desse ódio próprio que reside a cura das crianças quanto ao medo de serem amadas.

Se quer perceber mais continue a ler.

Compreendendo a importância de aceitar o ódio próprio por parte dos pais adotivos

Donald Winnicot, pediatra e psicanalista inglês que trabalhou com as crianças deslocadas da II Guerra Mundial, desenvolveu uma teoria muito pessoal no que dizia respeito às dificuldades que ele observava nestas mesmas crianças em adaptarem-se a um novo lar.

Segundo ele, as crianças provenientes de lares problemáticos ou desfeitos temem não ser amadas pelos novos progenitores. Receiam que mais cedo ou mais tarde a história se repita e isso incapacita-as de se sentirem saciadas com o amor que lhes é dado.

 

Tudo isto é inconsciente pois são defesas que ocorrem ao nível do nosso cérebro emocional, o cérebro que partilhamos com os outros animais e surgiu muito antes da adição do córtex pensante que nos diferencia deles.

Como meio de defesa expressam ódio quanto aos novos pais, apresentam comportamentos inapropriados (como mentir constantemente ou roubar), distanciam-se (não mostrando qualquer afeto por aqueles que tudo lhes tentam dar) ou simplesmente desesperam os progenitores com o seu nível de alarme elevado (que pode originar desde simples dificuldades em dormir até comportamentos obsessivo-compulsivos, passando por fobias e incapacidade de concentração).

Isto suscita naturalmente sentimentos de irritabilidade, falta de paciência e até desprezo e ódio por parte dos pais. São as suas próprias defesas a entrar em jogo.

Mas se esses mesmos pais aceitarem esses sentimentos indesejados como parte do processo, se aprenderem a tolerar os sentimentos desagradáveis e a não lhes atribuir todo o poder, se desenvolverem a capacidade de não se identificarem com o que sentem, então não agirão em sua função e serão capazes de tolerar o ódio, mau comportamento e outras manifestações de sentimentos inapropriados por parte dos filhos adotivos e/ou enteados.

Costuma-se dizer que a criança está a testar. Em parte é verdade. O que convém nunca esquecer é que este teste não é consciente, voluntário. São defesas, poderosas mas inconscientes.

A criança testa odiando. O seu ódio é aceite por pais que compreendem o próprio ódio e não deixam que este os impeça de amar na mesma.

E a criança sente-se amada na totalidade, até no que de mais desprezante tem para oferecer. As defesas quebram-se em pedaços e a cura acontece.

Esta teoria foi-me dada a conhecer por especialistas em trabalhar com famílias de crianças adotadas, como Gordon Neufeld ou Leslie Potter. Com eles tive o privilégio de o ver colocado em prática com sucesso.

E também eu, mãe biológica mas humana experimentei sentimentos menos amorosos relativamente à minha filha. E o poder curativo de o aceitar como parte do processo normal e saudável de ser mãe.

 

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