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Direitos em Estado de Emergência: onde termina a minha liberdade?

Quantos bebés toleramos que morram pelo direito das mulheres estarem acompanhadas na sala de partos? E quantos bebés toleramos que morram ou nasçam com sequelas físicas ou emocionais porque as parturientes não tiveram todo o acompanhamento a que têm direito?

 

Hoje tive uma discussão sobre os direitos em democracia.

Vivemos realmente em democracia? O estado de emergência é um atentado aos nossos direitos?

O que realmente significa dizer “a minha liberdade termina onde começa a liberdade dos outros”?

Sim, muitas pessoas deparam-se agora com uma perda de direitos.

E no caso particular debatido hoje, as parturientes perderam o direito a um acompanhante.

Essa perda de direito é legal?

Pelo que corre nas redes sociais e provindo de fontes bem credíveis não.

Mas ser ou não legal é o valor máximo?

Direitos em Estado de Emergência: uma perda real ou a morte de uma ilusão?

Se por um lado me parte o coração pensar em quantas mulheres têm que dar à luz sozinhas, por outro penso em quantos recém-nascidos poderão ficar infetados e morrer porque o impossível aconteceu e a entrada de um acompanhante entre mil levou a uma morte entre mil.

Quantos bebés toleramos que morram pelo direito das mulheres estarem acompanhadas na sala de partos?

E quantos bebés toleramos que morram ou nasçam com sequelas físicas ou emocionais porque as parturientes não tiveram todo o acompanhamento a que têm direito?

E o direito a despedirmo-nos dos nossos entes queridos? De poder realizar-lhes um funeral tradicional com toda a cura e ajuda ao luto que essa tradição trás?

Quantos filhos, netos, cônjugues ficarão para sempre marcados, sofredores de doenças psiquiátricas, por não poderem despedir-se dos seus entes queridos?

Por outro lado, quantas vidas serão salvas pela perda dos direitos de quem enterra seus mortos?

E o direito a estar seguro perante uma pandemia? O direito a estar seguro em tempo de guerra?

Porque não fazem os profissionais de saúde greve face à falta de condições de segurança? Porque o estado de emergência não o permite.

E é isso justo?

Para mim NIM, nem não nem sim.

Porque eles são seres humanos como eu e não deviam estar sujeitos a um risco maior de infeção e infetar os seus porque não há material suficiente para os proteger a todos, apetece-me gritar “façam greve, protejam-se, salvem os vossos e só trabalhem quando vos assegurarem tudo o que precisam e merecem neste tempo de guerra. Já vos chega as horas infinitas que têm de trabalhar, não permitam que vos obriguem a fazê-lo sem condições”.

Por outro, sabendo a quantidade de pessoas que morreriam sem os seus serviços apetece-me gritar “não podem fazer greve, é irresponsável, imoral, ilegal”.

 

E o legal é mesmo o dono da verdade?

Quantas mortes de profissionais de saúde e seus familiares toleramos em troca da vida dos outros?

Quantos doentes oncológicos aceitamos que morram por atraso de cirurgias? E quantos toleramos que morram por realização dessas mesmas cirurgias e subsequente infeções?

Quantas mortes por violência doméstica toleramos em prol da contenção das infeções por COVID-19?

E quantas mortes por COVID-19 toleramos em prol de proteger as vítimas de violência doméstica?

Vivemos tempos cinzentos, tempos em que a nossa ilusão de justiça cai por terra ao percebermos que na maioria dos casos não há justiça para 2.

É como o pássaro e a minhoca. O que é justo para o pássaro não é para a minhoca e vice-versa.

Vivemos tempos que desafiam a nossa ilusão de segurança e não é da física que falo.

Vivemos tempos de injustiça e a realidade é que o seu alcance é uma utopia.

Não quero com isto desvalorizar os esforços daqueles que lutam pelos direitos roubados, sejam das parturientes, dos profissionais de saúde, dos pássaros ou das minhocas.

Não, bem pelo contrário. Aplaudo-os de pé porque o que não é visto não é sentido.

E procuro a sua oposição para a aplaudir igualmente de pé.

Sinto-me desleal, fraudulenta, sem princípios. E sinto que me ergo no lugar mais difícil de todos: aquele em que o cavalo perde as palas e paralisa com tudo o que vê.

Por isso culpo o vírus. O estupido vírus que tinha que mutar e atacar a raça humana.

E até aqui me sinto dividida. Pois na realidade a raça humana muito atentou contra vírus, bactérias e outros seres vivos alegadamente inferiores (e sim, eu sei que o vírus não é considerado um ser vivo per se mas até isso é passível de ser contestado).

E se eu me atrever a não procurar culpados?

Quem sou eu se não tiver a quem culpar, o que contestar, algo contra quem me insurgir, um inimigo para combater?

Agora e sempre, em toda a minha existência?

Quem sou eu se apenas for um ser insignificante habitante da Quenlândia em Horton e o Mundo dos Quem?

 

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