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O dia em que fiquei desempregada

 

Hoje vou falar de morte. Hoje soube do falecimento de um bebé de 3 dias e de um pai e avô de quase oitenta. Hoje acordei e enfrentei a realidade da nossa mortalidade.

Levantei-me e comecei a preparar-me para mais um dia de trabalho. E enquanto escovava os dentes pensava na dor daqueles que tinham perdido quem mais amavam, senti a minha mente a divagar, a querer fugir, a não querer ver o que é a maior separação de todas. E a mais cruel.

Apeteceu-me escrever, tinha que escrever, não conseguia continuar o meu dia sem escrever. Sentei-me na cama, ao lado da minha filha que ainda dormia, abri o computador e comecei a chorar.

Não, ainda não estou preparada para falar da maior separação de todas, da mais cruel realidade desta vida, mas percebi o que precisava de processar: a minha morte no dia em que fiquei desempregada.

Já muitas vezes escrevi sobre como a minha vida desmoronou quando a minha filha nasceu, já muitas vezes partilhei como foram difíceis os primeiros dois anos da sua existência, já várias vezes referenciei como senti que precisei de nascer de novo. Mas do que eu nunca falei foi do momento em que realmente morri: o dia em que fiquei desempregada.

Numa bela manhã de inverno, bem no início de um novo ano em que tinha entrado chorando na cama com a minha filha nos braços, como que prenúncio do que estava para vir, senti ficar sem chão e perder o pouco, muito pouco que ainda me fazia sentir valer algo neste mundo.

Não culpo ninguém, nem sequer a mim própria. Sei que estava longe, muito longe da profissional que podia ser. Sei que andava perdida, sem foco nem motivação, imersa numa dor que não percebia e nem compreendia o que fizera para merecer.

Será que eu era assim tão errada? Tão defeituosa? Tão desadequada? Que fizera eu de tão maléfico para merecer tudo o que estava a viver? Estas eram as perguntas que eu lançava a Deus, ao Universo, ao que quer que seja que existisse lá fora. E a resposta foi cruel: “Ups, não tinha reparado que ainda tens o teu emprego. Fora com ele.”

 

Sempre acreditei em segundas oportunidades, mas nesse frio dia de Janeiro aprendi que nem sempre elas existem. E morri. Morri porque fiquei sem chão e morri pela incompreensão.

E nesse dia renasci. Renasci porque percebi que ainda existia, apesar do tudo o que tinha perdido. Percebi que, no meio do rescaldo do que experienciei como um terramoto de escala máxima, eu ainda respirava. Percebi que ainda me erguia, magoada, cambaleante, com feridas que iam demorar anos a sarar, mas ainda estava erguida, tal como um edifício que se mantem em pé, réplica após réplica, mesmo que sem segurança para ser habitado.

De seguida veio a anestesia. Sentir era demasiado. Atendemos às necessidades imediatas, tratamos dos feridos, enterramos os mortos. E não sentimos, não podemos sentir, é premente sobreviver.

Mas quando a poeira começa a assentar e o fumo a desvanecer, então conseguimos ver o que realmente se perdeu e o que ainda se mantém de pé. E para minha surpresa ainda havia muito que não tinha desaparecido.

Pouco a pouco percebi os maravilhosos amigos e familiares com que tinha sido premiada. Nos olhos daqueles que me contactavam, que me visitavam, que me ofereciam apoio comecei a ver o meu valor.

Sim, porque só quando tudo cai e não existem mais máscaras para serem usadas, quando a nossa alma desnuda e desmaquilhada é tudo o que temos para mostrar, é que realmente percebemos quem nos quer bem e porquê: porque simplesmente existimos. E isso é suficiente.

 

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