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O desafio da Maternidade: esta é a minha história

Quando a minha filha nasceu o meu mundo mudou, mas não como esperava. Nesse momento eu percebi que tinha de enfrentar o desafio da maternidade.

 

Quando a minha filha nasceu o meu mundo mudou. Mas não como tinha sido anunciado.

Quando a minha filha nasceu eu percebi que nunca na minha vida me tinha sentido tão incompetente, tão desadequada, tão fora do meu elemento. Nunca na minha existência tinha tido tanta vontade de fugir. Nunca na minha presença na terra tinha sentido tanto medo.

E não era um medo qualquer, não era o habitual medo de não ser boa mãe, de não ser capaz de amamentar, de não ser capaz de tomar conta dela. Era um medo mais profundo, mais visceral, era um pavor e um terror que me invadiam a alma, vindos não sei bem de onde, mas que preenchiam todos os poros do meu ser e me paralisavam a mente e o corpo ao mesmo tempo.

Talvez tivesse sido a gravidez traumática que eu tinha sofrido, talvez tivesse sido o parto com direito a transfusão de sangue e dois dias sem ver o meu bebé. Não sei, só sei que me sentia menos, menos que as outras mães naquele hospital, menos que todas as mães do mundo, menos que todas as mulheres do universo.

Lembro-me bem da primeira vez que vi a minha princesa, mas não pelas melhores razões.

As enfermeiras dos diferentes serviços em que nos encontrávamos internadas tiveram a gentileza de nos levarem a um corredor comum, onde deitaram o meu bebé no meu colo, ainda incapaz de me levantar da cama.

Olhei para o rostinho dela à espera de sentir aquele amor incondicional e para sempre transformador que tantas mães relatam. E nada. Tudo o que eu sentia eram os olhos do meu marido e de todas aquelas enfermeiras à espera da minha reação.

Fiz um esforço enorme por não chorar, estupidamente pois o meu choro teria sido entendido como emoção e eu sempre teria descarregado um pouco o stress. Fiz um esforço enorme por não gritar “Tirem-me daqui! Tirem-me daqui!” e beijei aquele rostinho frágil, aquele corpinho de apenas 1.800 Kg que parecia tão incomodado por estar no meu colo como eu por o ter lá.

E assim começou o meu percurso como mãe.

Na sabedoria das minhas 3 décadas de existência eu sabia que a vida tinha de continuar, que a única mãe que aquela criança alguma vez haveria de ter era eu, apesar de me parecer que ela merecesse bem melhor, e que eu tinha de me chegar à frente, eu tinha de ser capaz.

Gostava muito de poder dizer que este foi um momento de mudança, um instante de clarividência. Mas não, foi apenas um momento de conformismo, porque a vida às vezes é o que é e não há nada a fazer.

E assim começou a minha luta pela sobrevivência. É claro que eu gostava daquele bebé, é claro que eu o amava profundamente. E é igualmente claro que eu não desfrutava minimamente da sua tão preciosa existência.

 

Eu acordava de manhã a pensar na hora de me deitar. E ela chorava, chorava, chorava. Ela só queria colo, e eu também. Ela só queria a mãe, e eu também. Ela sentia-se imensamente assustada no seu intenso mundo novo, e eu também.

Mas lá nos fomos desvencilhando, um dia após o outro, um choro após o outro, dela e meu. Contava religiosamente os dias que faltavam para os tão afamados três meses, o fim das cólicas. Chegou esse tempo e nada mudou.

Toda a gente tinha uma solução para o meu problema, toda a gente sugeria algo, mas tudo o que eu conseguia fazer era esperar e desesperar. Chegaram os quatro meses e nada mudou.

Chegaram os 5 meses, e embora eu me sentisse como um pedaço de farrapo a ser arrastado ao sabor do vento, fiquei feliz por ir trabalhar, por estar um pouco longe dela. Feliz e culpada.

Chegaram os 8 meses e o que restava do meu mundo, a frágil ponte de madeira que ainda me ligava a um pouco de sanidade, parecia que ia finalmente desabar. Tudo que a minha bebé queria comer e beber era o meu leite, que eu tirava religiosamente com a bomba desde que ela nascera, numa tentativa teimosa e desesperada de algo controlar.

E tudo o que eu escutava era que tinha que a obrigar a comer sólidos, que tinha que a obrigar a comer a sopa. Lembro-me perfeitamente de alguém que me disse, com ar de quem diz que o tempo é capaz de mudar, que se a minha filha não começasse a comer sopa rapidamente provavelmente iria sofrer um atraso mental, alguém em cuja opinião eu confiava.

Fotografia de Rodrigo Lima

Desafio da Maternidade: o impulso para nascer de novo

Como que num último fôlego de energia, movida por puro desespero, comecei a pesquisar, a procurar soluções no que sempre havia sido o meu maior apoio: os livros. Numa rápida pesquisa pela Internet encontrei uma referência a um pediatra espanhol, Carlos González, que havia escrito um livro: Meu filho não come. Li-o quase num impulso. E a minha vida nunca mais foi a mesma.

De livro em livro, de autor em autor, uns referidos pelos outros, outros descobertos por pura sorte, entrei em contacto com o que se passa em outras sociedades, culturas onde os bebés quase nunca choram, culturas onde não existem cólicas, culturas onde a introdução dos sólidos é feita de acordo com indicações dadas pelas crianças e não segundo a idade.

Percebi que qualquer mulher é capaz de amamentar, independentemente das dificuldades com que se depara no início da sua jornada como mãe. Percebi que educar um filho é muito mais do que conhecer um conjunto de técnicas ou seguir uma filosofia de parentalidade.

Mas mais importante do que tudo, percebi que precisava de nascer de novo. Eu tinha vivido adormecida por mais de três décadas e estava na hora de finalmente acordar. Eu tinha entregado o meu poder, a minha vida, aos outros e estava na hora de tudo recuperar.

E a minha filha? Quando eu finalmente percebi que quem tinha de ser criada e educada era eu, a minha princesa desabrochou como uma flor do deserto que há tanto tempo esperava por água.

 

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