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Crianças condicionais: esperar ou não pelos 6 anos

 

Aos 6 anos de idade manda a lei que as crianças sejam matriculadas no 1º ano do 1º ciclo. Mas a obrigatoriedade só se aplica para os meninos e meninas nascidos até 15 de Setembro, inclusive.

Aqueles que fazem 6 anos entre 16 e 31 de Dezembro do mesmo ano, ou seja, que no início do ano escolar (meados de Setembro) ainda têm 5 anos, não só não têm que se matricular no 1º ciclo como, caso escolham fazê-lo, têm a sua entrada dependente da existência de vagas.

São as chamadas crianças condicionais ou, em termos mais corretos, crianças com matrícula condicional.

Neste momento existem duas tendências predominantes entre os pais das crianças condicionais.

Uma defende que as crianças devem entrar com 5 anos para assim ganharam 1 ano. Outra acredita que os pré escolares devem esperar até aos 7 para ingressarem no 1º ciclo de forma a terem mais tempo de serem crianças.

Muito se tem escrito e debatido sobre os prós e contras de ambos os movimentos e neste link partilho uma das opiniões que mais sentido fez para mim (se bem que só o tenha lido depois da escolha feita).

Mas hoje quero partilhar a minha experiência, o meu percurso e a minha descoberta revolucionária, que alterou toda a minha forma de pensar e a escolha realizada.

Crianças condicionais: a história da minha escolha

Não é por acaso que decidi escrever sobre o tema das crianças condicionais. Sou mãe de uma.

A minha filha nasceu no último dia do ano, a 31 de Dezembro de 2013. E nasceu antes do tempo, pois a sua chegada só estava programada para a segunda metade de Janeiro seguinte.

Até ao último ano da pré-escola não havia qualquer dúvida quanto à minha decisão: ela só entraria na escola primária com 6 anos feitos.

Ainda antes do meu interesse pela área da parentalidade já havia tomado a minha decisão, com base no forte impacto que o livro Outliers tivera em mim. Nele, Malcolm Gladwell apresenta um caso forte e extremamente convincente quanto às inúmeras vantagens das crianças que nascem no início do ano em detrimento das que nascem a partir de meados do mesmo ano.

A minha princesa podia ter nascido no último dia, mas eu iria certificar-me que ela possuiria todas as vantagens das nascidas em Janeiro, nem que fosse porque esse era realmente o seu mês.

Ao longo de quase 5 anos preparei avós e marido para a decisão que não era negociável: ela entraria na escola só aos 6 anos. Até porque muito do que ia então descobrindo no campo da parentalidade consciente parecia defender o mesmo desfecho.

Atrasei um ano a sua entrada na pré-escola e acredito que desde o primeiro dia que deixei bem claro à professora qual o meu desejo: a minha filha nunca seria uma criança condicional.

Só havia um possível revés na minha mente, uma possível consideração de mudança de posição: caso a professora do pré-escolar o aconselhasse. E mesmo assim seria preciso eu confiar muito nela para eu levar em conta a sua opinião.

Mas a vida nunca é preto e branco, por mais que eu o deseje e assim planeie.

Independentemente do que escreveu Malcolm Gladwell e contrariando o meu entendimento do material aprendido no Instituto Neufeld, a minha filha não só teve matrícula condicional como iniciará em Setembro próximo a sua dança no 1º ciclo.

Tenho certezas sobre a minha decisão? Não, de todo.

Então o que aconteceu? Entrei no cinzento da vida, percebi minhas motivações e escolhi em consciência.

Há muito que a experiência da vida, aliada aos meus estudos, me tem demonstrado que escolher em consciência nada tem a ver com escolher com certezas de que a minha escolha presente é o melhor para o futuro da minha filha.

 

Escolher com consciência é realizar a melhor escolha possível no presente, com o que conheço no instante em que vivo, com o que mais sentido faz para o aqui e agora. E largando a ideia infantil e ilusória de que tenho qualquer controlo sobre o que irá acontecer no futuro.

Assim sendo, quando no último ano da pré-escola da minha filha descobri que ela tinha atividades esporádicas num grupo de finalistas, que visavam avaliar e preparar os meninos que iriam transitar para o 1º ciclo, senti-me irritada. Afinal não havia sido consultada previamente e a minha decisão já comunicada estava a ser ignorada.

Na realidade acabava de sofrer um disparo. Esta descoberta ocorreu ainda no 1º período, por iniciativa da professora em me comunicar e onde ela manifestava a sua opinião de que a minha princesa, apesar de ser a mais pequena (em idade e tamanho) apresentava todos os sinais de vir a estar preparada para transitar para o 1º ciclo no fim desse mesmo ano letivo.

Bolas, e eu que confiava mesmo nesta professora!

Resolvido o disparo emocional, engoli o orgulho e comecei a reverter todo o trabalho de mentalização que tinha antes realizado, comigo e com a minha família.

Estávamos já em fase de matrículas e eu já havia colocado todos os meus ovos no cesto oposto: a minha princesa só ganharia em entrar para a escola primária neste mesmo ano. Afinal ela manifestava uma enorme vontade em o fazer, era extremamente curiosa, emocionalmente saudável para a idade e até já demonstrava sinais esporádicos, se bem que ainda raros, de um início de integração. Não tinha que me preocupar.

É então que a professora me chama e eu fico a saber que a minha princesa e o lápis possuem uma relação nada amorosa.

Que ela não pintava dentro das linhas, nem lá perto, eu já havia percebido. Que os desenhos dela eram quase sempre meros rabiscos incompreensíveis eu já tinha notado. Que ela pura e simplesmente não gostava de trabalhar com o lápis não era de todo novidade para mim.

Mas que isso não era o habitual, estava fora da minha esfera de conhecimento (ou vontade de o aceitar).

E agora? O que fazer? Que decisão tomar? Afinal o 1º ano do 1º ciclo é maioritariamente sobre aprender a escrever!

Agora só me restava ficar no presente e aqui, no agora, encontrar as minhas respostas, realizar a minha escolha, sem ilusões de certezas quanto ao futuro.

E no presente, no único tempo em que realmente temos o poder de alterar, escolher, controlar, percebi que a minha decisão há muito que havia sido tomada e tudo o resto era puro fogo-de-artifício, entretimento dramático, ilusões de mãe que almeja ser perfeita: eu iria fazer o que a professora recomendasse, eu iria passar para ela a batata quente, eu iria escolher a desresponsabilização.

Sim, posso argumentar que eu acredito que a professora sabe melhor que eu qual a melhor escolha para a minha filha. Afinal essa é a sua profissão e competência. E na realidade não estou a fugir à verdade quanto às competências da dita professora.

Mas a palavra final é minha e do meu marido e apenas nossa. E eu escolhi não ousar diferente, não remar contra a corrente, não ser a mãe que se destaca por contrariar a opinião da professora.

Como tal, a minha almejada decisão consciente parecia não ter nada de consciente. Eu escolhia seguir a opinião daquela a quem atribuía uma autoridade maior que a minha.

E no entanto foi uma das decisões mais conscientes que tomei na vida. Pois foi uma escolha que realizei na consciência das minhas feridas, limitações, estratégias de sobrevivência. E com isso liberto a minha filha de ter que um dia me provar certa ou errada. A sua boa ou má adaptação e o seu futuro desempenho escolar não estarão sobre a pressão de demonstrar a mim e ao mundo o meu valor como mãe.

Sou mãe e sou humana. Desejo o melhor para a minha filha, nada menos do que o ex-libris da vida. No processo de a criar vou aprendendo a reconhecer e acolher as minhas feridas, a conhecer e respeitar as minhas limitações, a enfrentar as barreiras há muito contruídas que se permanecidas no inconsciente poderiam ser o que mais sabotaria o meu objetivo altruísta de mãe.

No processo, tal como costuma dizer Leslie Potter, tenho confiança incondicional no futuro. Confiança que aconteça o que acontecer eu saberei lidar com isso, no momento certo e sem qualquer necessidade de planeamento, preparação ou adivinhação prévia.

Confiança incondicional que no presente tudo está bem, tudo está certo, tudo é como tem de ser.

 

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