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Como proteger as crianças das consequências emocionais do COVID-19?

 

Numa altura em que todo o mundo procura perceber como proteger os seres humanos da propagação da infeção pelo novo coronavírus é imperativo realizar uma outra avaliação: Como proteger as crianças dos efeitos emocionais do COVID-19?

Felizmente os mais novos parecem ser menos propensos às consequências físicas da infeção pelo novo coronavírus. Por outro lado são mais propensos aos efeitos emocionais da pandemia do medo.

Neste momento vivemos um cenário de guerra, como já referido por várias figuras de topo. Estudos efetuados em outros cenários de guerra, nomeadamente após a II Guerra Mundial ou os atentados de 11 de Setembro de 2001 nos EUA, provaram que as crianças podem pagar uma fatura bem cara e para a vida como resultado da exposição ao medo coletivo. E tudo começa ainda na barriga da mãe, mais precisamente a partir dos 6 meses de gestação.

Crianças expostas à pandemia do medo poderão ser indivíduos com uma maior propensão para:

– Stress pós traumático

– Dependência de álcool e drogas

– Tabagismo

– Ansiedade debilitante

– Distúrbios obsessivo-compulsivos

– Distúrbios alimentares como anorexia nervosa e bulimia

– Obesidade mórbida

E isto é só para citar alguns.

Mas o oposto também é verdade: A pandemia do medo, tal como a pandemia pela infeção por COVID-19, pode ser menos agressiva para os menores de idade. E quanto mais novos mais protegidos.

Porque para a pandemia do medo existe uma vacina: os Pais.

Stanley Hall (psicólogo do desenvolvimento humano dos fins do século XIX e primeiro presidente da Associação Americana de Psicologia) definiu o papel dos pais na educação e criação dos filhos da seguinte forma:

O mais importante papel que os pais podem ter na criação de um filho é o de serem amortecedores da sociedade. Amortecedores das expetativas de uma sociedade que exige demais e demasiado cedo.

E no contexto da pandemia do medo, amortecedores dos efeitos desta pandemia nas crianças.

A saúde mental dos seus filhos pós pandemia coronavírus está grandemente nas suas mãos. Para tal precisa de assumir as suas responsabilidades parentais e criar um espaço de amortecimento do impacto nos seus filhos do medo generalizado que hoje se vive.

Como proteger as crianças em relação ao COVID-19?

Deixo aqui algumas dicas práticas.

1 – Não veja ou escute noticiários na presença dos seus filhos. Proteja-os da realidade que se vive no planeta pois eles não estão ainda emocional e psiquicamente capazes de a assimilar.

 

2 – Escute as preocupações e medos dos seus filhos. Não desvalorize o que eles sentem e pensam. Por muito que os proteja como indicado no ponto 1, é certo qua alguma informação há-de passar e eles vão sentir medo.

Em vez de tentar convencê-los que estão seguros, tudo irá passar ou não têm razões para se preocupar, escute-os e valide tudo o que sentem. Não tente racionalizar com uma criança pequena. Peça-lhe antes para lhe contar mais sobre o que vai na sua cabecita e reflita para eles o que está a escutar.

Após eles se sentirem vistos, escutados e entendidos com esta prática de escuta refletiva, termine sempre com a criação de uma ponte para tempos de segurança, para tempos pós COVID-19:

Eis o exemplo de uma das minhas pontes:

“Quando o coronavírus se for embora de vez vamos à praia da tia Carla e faremos castelos de areia juntas. Como queres que seja o teu? Redondo ou quadrado? Com fosso ou sem fosso?”

Coloquemos SEMPRE o foco na conexão (no que permanecerá igual) e não na separação (nas mudanças exigidas pela pandemia atual).

3 – Prepare anteriormente a criança para uma possível hospitalização de um membro da família tal como uma região propensa a tremores de terra prepara as suas crianças.

Use palavras como “NA EVENTUALIDADE de o pai, a mãe ficar doente, tu ficarás ao cuidado da tia”, por exemplo.

De seguida aplique o descrito no ponto anterior.

E lembre-se sempre de terminar com a ponte para a conexão: “Quando a mãe, pai ficarem bons iremos passar a tarde a brincar. Que jogo faremos primeiro?”

4 – Transmitam segurança aos vossos filhos de forma não-verbal.

Por muito inseguros que se sintam finjam segurança, confiança, normalidade.

Encontrem um porto seguro onde possam chorar, partilhar dúvidas e medos, colapsar se assim for necessário. Mas longe dos olhares e ouvidos dos vossos filhos. Na sua frente finjam, façam bluff, realizem o que for necessário para serem um porto seguro para a criança.

Bessel Van der Kolk (psiquiatra, autor e educador holandês), no seu livro The Body Keeps the Score conta uma história real bem elucidativa do papel dos pais na proteção das crianças quanto a traumas:

No dia 11 de Setembro de 2001 um pai seu conhecido deixava o seu filho de 5 anos na creche junto às torres gémeas quando o primeiro avião chocou com a primeira das ditas torres. Pai e filho fugiram do cenário de destruição, correndo entre destroços que caíam dos céus. Pai e filho corriam o mais que podiam para salvar as próprias vidas.

No dia seguinte Bessel Van der Koln visitou esta família. O pequeno de 5 anos entregou-lhe um desenho feito por si onde era já claro que o menino recuperava emocionalmente e não ficaria traumatizado.

O psiquiatra holandês explicava então porquê. O menino, tal como todas as crianças, enquanto fugia de um cenário dantesco, olhava para o pai em busca de pistas sobre o que sentir. Como o pai conseguiu sempre transmitir segurança enquanto corriam, o menino sentiu-se seguro perante um cenário de guerra que traumatizou muitos que o viveram a uma distância bem mais segura.

Nós podemos olhar para o ambiente em busca do que sentir, de como encarar um cenário de guerra. Mas os nossos filhos olham para nós e simplesmente para nós.

É no olhar de um pai ou mãe que uma criança encontra a sua segurança ou trauma.

 

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