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Beijos Especiais

Foi por acidente que eu e a minha filha criamos um dos melhores rituais de conexão que alguma vez tivemos, a partilha de um momento que mais me enche a alma. E foi assim, numa tentativa falhada de corrigir um comportamento que me incomodava, que eu encontrei o sentimento de competência e realização que tanto procurava.

 

Hoje vou falar no feminino porque é de uma celebração do feminino que eu venho e me sinto grata. Nós, mães, mulheres, aprendemos a culpar-nos por tudo e por nada, a julgarmo-nos a nós próprias a cada erro cometido ou apenas quase realizado, a andar de lupa na mão, inspecionando tudo o que fazemos, dizemos, não fazemos ou não dizemos.

Somos as nossas maiores críticas e, consciente ou inconscientemente, ansiamos pela perfeição, pelo dia em que vamos ser perfeitas, porque nesse dia vamos ser suficientes, dignas de ser amadas, respeitadas, levadas a sério. Nesse dia, e só nesse, vamos ser dignas se ser vistas como seres humanos merecedores de existir.

O que nós nos esquecemos, o que nunca lembramos, o que nunca é debatido é o segredo das grandes invenções, as grandes descobertas: o melhor que o mundo tem para nos oferecer resultou, a grande maioria das vezes, de acidentes, de momentos de imperfeição, de desvios ao caminho imaginado.

A descoberta da penicilina é consequência de um esquecimento, a compreensão da gravidade derivou de um acidente e um homem que não se culpou por escolher o lado errado da árvore para se sentar, a invenção da eletricidade veio no seguimento de uma brincadeira estúpida para ser realizada num dia de tempestade.

Hoje de manhã vivi um momento que me lembrou que também na parentalidade, na criação dos nossos filhos, os nossos melhores momentos, os comportamentos próprios que nos enchem de mais orgulho, as atitudes que nos fazem sentir competentes e realizadas como mães, provêm, inúmeras vezes, de acidentes, falhanços, tentativas fracassadas de realizar algo.

Quando a minha filha de 2 anos começou a cuspir eu encarei isso como uma ótima oportunidade de colocar em prática tudo o que eu andava a aprender sobre a Parentalidade Consciente. Não tinha nenhuma irritação, nenhum disparo para resolver. Podia passar diretamente à prática.

Afinal, este era o momento de eu mostrar a mim própria e aos que me rodeiam como eu estava em controlo, a minha hora de glória, de valorização. Mas como já devem estar a adivinhar a minha fonte de crescimento, a minha sábia de apenas duas primaveras tinha outros planos.

Voltemos à história. A minha princesa começou a cuspir em todo o lado, na cama, no carro, na comida e onde podem mais imaginar. Eu não a queria reprimir, queria orientá-la para uma boa escolha: “Amor, estou a ver que tens necessidade de cuspir, mas não se cospe no carro (cama, comida, …) a mamã vai contigo à casa de banho e podes cuspir na banheira”. Foi provavelmente o único sítio em que, há altura, ela nunca o realizou.

Sem stress, tinha outros truques na manga, como por exemplo a aceitação do comportamento de forma a ele perder força: “Amor, eu vejo que tens mesmo muita necessidade de cuspir. Cospe à vontade”. E ela assim o continuou a fazer!

Ora bolas, ela tinha acertado na murche, isto não tinha nada a ver com o ato em si mas com o minha necessidade de me sentir competente como mãe. Tinha trabalho interior para realizar, não tinha irritações, mas certamente que tinha disparos. Mas não me apetecia mesmo nada olhar para mim naquele momento. “Que se lixe, não quero saber, deixa-me ser incompetente por um dia, logo penso no assunto”.

 

Nesse dia à noite, e ainda comigo nesse espírito, ela começou a cuspir na cama. Livre de pensar o que fazer, agi por instinto. Passei à brincadeira. Olhei para ela, a fingir um ar muito espantado e carente e exclamei, dramaticamente “O quê?! Tu estás a atirar-me beijos especiais?! Oh, meu Deus, não consigo resistir-te, tenho que te beijar!” e beijei-lhe o corpo todo enquanto ela ria à gargalhada.

E ela repetiu o comportamento. E eu a brincadeira, até à exaustão.

E a partir daí foram tantas as vezes que brincamos aos “beijos especiais” que já nem é uma brincadeira, é algo que faz parte de nós. E há muito que o que era cuspir passou para uma espécie de soprar, um som carinhoso e nada inapropriado.

Quando ela está mais carente, como após um fim-de-semana sem a mãe, chega ao pé de mim e sopra daquela maneira especial, e eu escandalizo-me, não consigo resistir e beijo-a sem parar. E ela volta a soprar. E eu volto a escandalizar-me, a não resistir e a beijá-la incessantemente.

E é um cem vezes de repetir o mesmo até que ela tome a iniciativa de parar e passar para outra coisa, que invariavelmente é algo separado de mim e me permite ter tempo para realizar o que eu estiver a precisar de efetuar, sem a ter agarrada à minha perna, a exigir atenção.

E foi assim, por acidente, que eu e a minha filha criamos um dos melhores rituais de conexão que alguma vez tivemos, a partilha de um momento que mais me enche a alma. E foi assim, numa tentativa falhada de corrigir um comportamento que me incomodava, que eu encontrei o sentimento de competência e realização que tanto procurava.

E como é que ela parou de cuspir? Não me lembro, por estranho que pareça não tenho qualquer recordação sobre isso. Talvez tenha sido a brincadeira, talvez não, só sei que algures parou pois há muito que não o faz, mas não sei quando tal aconteceu.

Ah, desculpem, às vezes fá-lo no banho, sentada na banheira dela cospe para a nossa, no interior da qual eu gosto de colocar a primeira… afinal parece que ela sempre aprendeu a realizar a sua necessidade de forma, por mim, mãe dela, considerada apropriada!

 

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