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Ansiedade, suicídio, bullying e bebés romenos

O vínculo é a nossa necessidade mais básica e serve a sobrevivência. Num contexto de vínculo sobrevivemos. Fora desse contexto sentimos que morremos. E a verdade é que em bebés morremos mesmo sem os cuidados daqueles a quem estamos vinculados.

 

Já alguma vez sentiu que a ansiedade é a sua companheira mais fiel? Já alguma vez desesperou por se sentir constantemente inseguro? Já alguma vez se apercebeu que vive no medo, com medo e para o medo? Então deixe-me mostrar-lhe uma pequenina ponta do icebergue que constitui o porquê.

Falemos de emoções, falemos de vínculo, falemos de sobrevivência. E de forma bem linear: as emoções servem o vínculo e o vínculo serve a sobrevivência.

Comecemos pelo último. Conhecendo ou não a pirâmide de Maslow, certamente que lhe fará sentido a afirmação de que a nossa necessidade mais básica é a da sobrevivência. Se passa fome e/ou não possui um teto sobre a sua cabeça, certamente que a sua prioridade não será encontrar um trabalho que o realize, mas sim um que lhe permita ganhar dinheiro.

Mas na realidade isto não é bem verdade, pelo menos não de forma tão simplificada. Imagine que está a vivenciar um terremoto e que pensa que os seus familiares (pais, filhos, irmãos) estão dentro de uma casa que ameaça ruir. Qual o seu comportamento instintivo? Manter-se longe da habitação de forma a salvar a sua vida? Ou correr para dentro dela, não pensando em mais nada senão resgatar aqueles que mais ama?

Pois é, é mesmo o segundo. Mas se a nossa necessidade mais básica fosse a sobrevivência, então como explicaríamos tal comportamento instintivo? De maneira nenhuma. A única conclusão possível é que tem que existir algo mais premente, uma necessidade mais primitiva, ainda, do que a sobrevivência.

E essa necessidade chama-se vínculo e traduz-se num movimento de procura de proximidade daqueles a quem estamos afetivamente ligados.

Daqui se explica os suicídios. Se a nossa necessidade mais básica fosse a sobrevivência, então não existiriam suicídios. Mas percebendo que a nossa primeira necessidade é sentirmo-nos próximos daqueles a quem amamos, então assim podemos compreender o que leva alguém a por termo à própria vida.

Um adolescente não se mata porque sofre bullying, mas sim porque sente não ter ninguém que o compreenda e ame incondicionalmente. Ser vítima de uma violência atroz e/ou continuada é certamente um forte gatilho, mas numa criança que se sinta vista, escutada, compreendida e amada não acaba em suicídio. E, atenção, sentir-se amada e sê-lo são duas coisas bem diferentes.

O vínculo é a nossa necessidade mais básica e serve a sobrevivência. Num contexto de vínculo sobrevivemos. Fora desse contexto sentimos que morremos. E a verdade é que em bebés morremos mesmo sem os cuidados daqueles a quem estamos vinculados.

Até podemos ser alimentados, vestidos e alojados por indivíduos não vinculados a nós. Fisicamente podemos ser bem cuidados. E morrermos na mesma, como aconteceu nos orfanatos romenos no tempo da ditadura de Nicolau Ceausescu. Bebés com alimentação, higiene e cuidados médicos adequados, pereciam, uns após os outros, por falta de contacto humano suficiente. E aqueles que sobreviveram não o fizeram sem o padecimento de severos problemas emocionais e comportamentais.

O conhecimento de que o vínculo serve a sobrevivência é um dos conhecimentos mais revolucionários da neurociência das últimas décadas.

 

E o que serve o vínculo? O que é que em nós nos motiva a procurar a proximidade daqueles que amamos? O que faz de nós seres sociais, nascidos para viver em comunidade? As emoções.

As emoções servem o vínculo

Então agora começamos a perceber a ponta do icebergue. Se as emoções servem o vínculo e este serve a sobrevivência, então o medo tem como função manter-nos seguros. Até aqui tudo bem, bastante básico e sem necessidade de tanto texto introdutório.

Mas como opera exatamente o medo? Leva-nos a procurar aqueles que acreditamos serem capazes de nos proteger. Quando sentimos medo corremos para os nossos protetores, procuramos abrigo debaixo das suas asas, chamamos casa ao seu colo. E neles, e com eles, e só na sua presença recalibramos e nos sentimos seguros novamente. O medo serviu o seu papel, e pode agora seguir viagem.

Mas o que acontece quando os nossos protetores estão inacessíveis? Quando a separação é demasiada, pelo menos em termos emocionais? Quando temos teto, comida, roupa lavada e até uma casa cheia de gente, mas não nos sentimos compreendidos por ninguém? Não nos sentimos seguros. Nunca nos sentimos em segurança. Vivemos no medo.

E agora o pormenor retorcido digno de um filme de Hitchcock. Aquilo que é demasiado doloroso para conseguirmos ver o nosso cérebro apaga do nosso conhecimento, tal como o sol nos cega se olharmos diretamente para ele.

E aí surge a ansiedade. É como diz Gordon Neufeld: “Ansiedade é medo sem olhos”. Um dia experienciamos medo. Um dia corremos para os nossos protetores. Um dia os nossos protetores, nas suas limitações, não nos fizeram sentir seguros. Um dia não perdemos o medo. E um dia a ansiedade fez de nós a sua casa.

Para mim, a vida é uma constante vigilância. Não posso baixar a guarda, não posso relaxar, não posso viver no momento. Porque a qualquer instante e em qualquer lugar algo ou alguém me irá puxar o tapete. Essa é a minha maior certeza… ou costumava ser, até compreender de onde vem esse medo e começar o seu processo de desconstrução.

Um dia fui prisioneira da ansiedade. Agora acolho-a e escuto o que tem para me dizer. Não é mais minha cárcere, é minha companheira de viagem. Por vezes acolho sua companhia. E por vezes digo-lhe que me deixe. Um dia fui soldado e a ansiedade comandante. Hoje não mais, hoje invertemos os papéis, hoje seu que a comando.

 

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