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Amo-te Ana Margarida, que escolheste não nascer

Sabes filha, a tua irmã será sempre um espelho de ti, mas eternamente um retrato incompleto. Por mais que eu olhe, analise, espreite os cantos nunca te vou conseguir ver, sentir, conhecer.

 

Filha, tive que parar de escrever, sentia-me culpada. Estava a escrever sobre mim e não sobre ti, estava-me a focar em mim e não em ti.

Parei, respirei, pensei em ti, só em ti. E senti a dor a aparecer. Tímida, com medo, preparada para fugir.

“Vem dor, podes vir, eu quero sentir, eu agora sei que o caminho não passa por reprimir. Vem dor, podes vir, eu agora tenho colo, o melhor de todos, o meu próprio. Vem dor, podes vir, eu quero conhecer-te, escutar o que tens para me ensinar e transmitir.”

E ela veio. O peito apertado, o choro preso, a raiva borbulhante. E a tristeza, sempre a tristeza, a espreitar, a imobilizar, a desestruturar.

Sabes filha, a tua irmã será sempre um espelho de ti, mas eternamente um retrato incompleto. Por mais que eu olhe, analise, espreite os cantos nunca te vou conseguir ver, sentir, conhecer.

Não é justo, não é assim que devia ser!

Tu não estás cá, ao lado dela, a brincar, a rir, a gritar. Tu não estás cá, ao lado dela, para podermos beijar, mimar, acarinhar. Tu não estás cá, ao lado dela, e sentiremos para sempre a tua falta, eu e ela, para sempre sem te abraçar.

Não é justo, não é assim que devia ser!

E os gémeos que não param de se mostrar. A cada canto um carrinho duplo, a cada esquina um par de iguais. O meu coração parte, o meu corpo paralisa e a minha mente grita em silêncio:

Não é justo, não é assim que devia ser!

Eu nunca conhecerei a tua maneira de ser, o teu sorriso próprio, as tuas marotices, os teus desgostos, o que te dá prazer.

Eu nunca saberei de que sobremesa mais gostas, se és tímida ou sociável, rebelde ou sossegada e se também adoras chocolate.

Não é justo, não é assim que deveria ser!

Porquê? Para sempre porquê?

Se um dia me amparou saber que pode ter sido escolha tua não nascer, hoje não me ajuda mesmo nada, hoje sinto-me revoltada.

Porquê filha? Porquê? Porque escolheste este fim?

 

Foi algo que eu fiz? Desististe de mim? Porquê, filha, porquê? Porque partiste assim?

Foi porque sentiste que eu não era capaz? Porque cedo percebeste que eu sou fraca e preciso demasiado de sossego e paz?

Porquê, filha, porquê? Porque fugiste de mim?

Eu sei que depois de a tua irmã nascer eu chorei de culpa e alívio, por não ter duas, apenas uma, pois com gémeos não iria certamente sobreviver. Mas amor eram só loucuras de dor, cansaço e solidão. Insânias de desespero por uma bebé perder e o luto da outra não conseguir compreender.

Fui eu que te fiz não nascer? Fui eu que te levei a neste mundo não viver?

Porquê, filha, porquê? Para sempre porquê?

Esquece meu amor, não me escutes, não me ouças. São apenas devaneios de dor, momentos de raiva e insegurança.

Não é sobre ti, não é tua responsabilidade aplacar meu pesar, é apenas sobre mim e a minha dificuldade em te libertar.

Tu fizeste a tua escolha, tu tiveste as tuas razões. E a mim só me cabe respeitar e aceitar.

Voa, meu amor, voa com as asas que Deus te deu e o Mundo não teve tempo de vergar. Voa, meu amor, voa e sê feliz onde quer que escolhas poisar.

Voa, meu amor, voa, sabendo que tens sempre um ninho para onde voltar, uma casa segura onde podes sentir-te amada e descansar.

Vou cuidar de mim, das raízes da árvore que tenho que ser, para ti e para a tua irmã. Vou cuidar de mim, das minhas feridas antigas, das minhas partes por crescer. Vou cuidar de mim porque só assim posso cuidar verdadeiramente de vocês.

Eu sei, amor, eu sei, minha filha, na verdade eu sempre soube porque escolheste não nascer. Porque eu precisava de acordar, porque era eu quem carecia renascer. E porque almejavas que a tua irmã tivesse como mãe a melhor versão de mim e não apenas uma criança imatura e que não sabia como viver.

Eu sei, meu amor, minha filha querida, eu percebo, eu entendo… e eu hei-de conseguir aceitar.

Amo-te Ana Margarida, minha filha linda que escolheste não nascer. Vou-te amar continuamente, sem medos nem porquês. Amo-te, Ana Margarida, para sempre e mais além. E vou amar-te eternamente.

 

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